quinta-feira, dezembro 29, 2016

Rogue One: Uma História Star Wars


Fomos, Cintia e eu, ver o novo filme da franquia Star Wars, anteontem, no Cinépolis 4D do Shopping JK Iguatemi, em São Paulo – o mesmo cinema onde vimos Episódio VII: O Despertar da Força, exatamente um ano atrás. Para quem não conhece, trata-se de um cinema muito especial, com poltronas que se movem acompanhando o que acontece no filme, efeitos de vento, e até borrifos de água quando a cena assim exige. É tão legal que a gente até esquece essa bobagem de "4D" no nome! E esse filme, em especial, tornou a experiência bem divertida, fazendo valer os (bons) reais pagos a mais no ingresso. Mas vamos falar do que realmente importa.

Embora só tenhamos sabido disso no dia seguinte, vimos Rogue One no mesmo dia em que faleceu a atriz Carrie Fisher, que interpretou a Princesa Leia na trilogia clássica, nos anos 70 e 80, e também em O Despertar da Força. Fisher, de apenas 60 anos, sofreu um ataque cardíaco durante um voo da Inglaterra para os Estados Unidos, vindo a morrer horas depois no hospital da Universidade da Califórnia, em Los Angeles – e, como minha namorada observou de forma tão sagaz, a vida não é justa mesmo, pois a atriz deixa este mundo bem no momento em que começava a voltar a chover em sua horta. Com a compra da Lucasfilm (detentora dos direitos de Star Wars) pela Disney, em 2012, a promessa feita foi a de que os fãs seriam brindados com um novo filme da franquia todo ano – já que a Disney, sendo a Disney, dispõe de pessoal, estrutura e recursos para tanto. E, depois do necessário período de ajustes de pouco mais de dois anos, a promessa vem sendo mantida: O Despertar da Força dava sequência a O Retorno de Jedi, lançado no distante 1983, e, embora ainda estejamos aguardando pelo Episódio VIII, Rogue One vem para suavizar a espera. Trata-se de um spin-off, ou seja, uma história que não propriamente faz parte da saga, mas ambienta-se no mesmo universo e está, de alguma forma, relacionada a ela.

Outra observação de Cintia: Star Wars nunca esteve tão na moda quanto agora, e os filmes são apenas uma fração do fenômeno. Nas livrarias há, literalmente, dezenas de títulos disponíveis, romances ambientados nesse universo, indo desde as adaptações dos filmes até extrapolações que exploram as muitas lacunas que eles deixam, isso sem falar, é claro, nos milhares de produtos licenciados de todos os tipos. O logo de Star Wars e as caras dos principais personagens estão em qualquer lugar para onde olhemos! Isso, somado ao fato de Leia ter, muito provavelmente, lugar de destaque em todos os episódios da nova trilogia, representaria uma mina de ouro e um salto em termos de fama para Fisher, bem como para seus colegas de elenco, dos quais apenas Harrison "Han Solo" Ford consolidou uma carreira de sucesso no cinema depois de sua participação na franquia (não estou considerando os que já eram nomes consagrados na época, como Peter Cushing ou Alec Guiness). Infelizmente, Fisher não se beneficiará dessas novas oportunidades… Parece que parte de suas cenas destinadas ao Episódio VIII já haviam sido gravadas; resta-nos esperar para ver qual a mágica que o diretor e o roteirista irão fazer para suprir sua falta no restante do filme.


Rogue One, entre outras coisas, responde a uma questão que os fãs mais detalhistas de Star Wars vêm levantando desde 1977, ano em que foi lançado o filme que hoje chamamos de Episódio IV: Uma Nova Esperança, mas que por muito tempo foi conhecido apenas como Star Wars, ou, no Brasil, Guerra nas Estrelas. A questão é: como é possível que a Estrela da Morte, projetada para ser a arma definitiva do Império Galáctico, capaz de destruir planetas inteiros, e que demandou um volume absurdo de recursos e mão de obra, tivesse uma brecha em suas defesas, que Luke Skywalker e os outros pilotos da Aliança Rebelde puderam usar para destruí-la? Nesse novo filme, que se passa imediatamente antes do Episódio IV, ficamos sabendo que o principal responsável pelo projeto da superarma foi o cientista imperial Galen Erso (Mads Mikkelsen, da série Hannibal), que, no entanto, não concordava com a política tirânica do imperador Palpatine, e, por isso, tentou abandonar a posição que tinha, exilando-se, com a esposa e a filha pequena, num planeta primitivo, onde passou a viver como fazendeiro. Porém, agentes do Império acabam por conseguir localizá-lo e o capturam para obrigá-lo a finalizar o projeto inacabado da Estrela da Morte.

Galen é levado, sua esposa é morta, mas o casal consegue salvar a filha, Jyn, que fica sob a proteção de um homem chamado Saw Gerrera (Forrest Whitaker), um líder rebelde e velho amigo de seu pai. Anos mais tarde, Jyn, já adulta (Felicity Jones), está numa prisão do Império por causa de uma série de pequenas infrações não relacionadas à rebelião, quando é resgatada pelos rebeldes, que sabem quem ela é e planejam usá-la para encontrar Galen – e matá-lo, embora não contem a ela essa última parte. Escoltada pelos rebeldes, Jyn reencontra seu antigo tutor Saw Gerrera, que lhe mostra uma mensagem holográfica que Galen Erso gravou e enviou secretamente. No holograma, entre outras coisas, o cientista revela um segredo: embora tenha sido forçado a colaborar no desenvolvimento da Estrela da Morte, não queria ser responsável por dar ao imperador uma arma que seria usada para fortalecer sua tirania. Então, propositalmente, deixou um ponto fraco, que um piloto hábil e com conhecimento das plantas da Estrela da Morte poderia usar para destruí-la. Rogue One é a história de como os rebeldes obtiveram essas plantas, o que possibilitou aquela vitória épica ao final do Episódio IV, que sagrou o jovem Luke Skywalker como um guerreiro admirado. Para ir em busca dessas preciosas informações, Jyn é acompanhada por um curioso time de combatentes rebeldes sob a liderança do comandante Cassian Andor (Diego Luna). Todos os que compõem esse grupo são personagens cativantes, que certamente ficarão na memória dos fãs, mas já há muitos textos e vídeos pela internet afora tratando deles, de modo que prefiro adotar um foco diferente para o restante deste post. Não que o que vou dizer também já não tenha sido escrito, muito provavelmente, mas são considerações mais pessoais. Vamos a isso…

O que preciso comentar são as surpresas (e o contentamento) que essa nova fase de Star Wars tem trazido para os fãs da velha guarda como eu, proporcionando uma carga de emoção como não experimentávamos desde a trilogia clássica, formada por Episódio IV: Uma Nova Esperança (1977), Episódio V: O Império Contra-ataca (1980) e Episódio VI: O Retorno de Jedi (1983), que marcou época no cinema de ficção científica… Na verdade, classificá-la dessa forma é controverso; eu mesmo sou da opinião de que "fantasia espacial" chega mais perto de definir o que Star Wars é – mas aqui não é o lugar de discutir isso. O importante é que a trilogia clássica marcou época e inaugurou o que hoje é praticamente uma nova mitologia, um universo vastíssimo, cheio de tramas entrelaçadas, aventuras épicas e personagens inesquecíveis. Não que esses primeiros filmes tivessem enredos complexos ou muito inovadores: era a boa e velha luta do bem contra o mal, e pouco mais que isso. Talvez essa simplicidade seja parte da magia, juntando-se à ação vertiginosa, ao visual marcante e aos personagens carismáticos para explicar o que nos fascina tanto. Star Wars nunca terá a mesma complexidade nos roteiros que Star Trek, e dificilmente se prestará tão bem a estimular reflexões sobre questões do mundo real – o que não significa que um seja melhor que o outro: são propostas completamente diferentes (daí por que nós, nerds, ficamos tão contrariados quando um leigo confunde os dois!), e há muita gente que adora ambos, como eu, por exemplo.

Justamente o fato de Star Wars, como regra, tender para a simplicidade nos enredos, faz com que Episódio VII: O Despertar da Força e Rogue One sejam surpreendentes: pela primeira vez na saga, há sugestões de que nem o Império Galáctico nem a Aliança Rebelde são blocos monolíticos, nos quais todos pensam igual. No Episódio VII, conhecemos Finn, um stormtrooper (soldado de infantaria do Império) que tem dúvidas sobre a validade moral da causa que defende, passa a questionar as ordens que recebe, e acaba por desertar e juntar-se aos rebeldes; em Rogue One, descobrimos que dentro da Aliança Rebelde existem dissidências, facções que discordam entre si e membros ambiciosos que não desejam apenas trazer de volta a paz e a justiça dos tempos da Velha República, mas também subir na cadeia de comando e obter poder para si próprios. E pensar que, quando soubemos que Lucasfilm agora pertencia à Disney, chegamos a ter receio de que os novos filmes viessem com argumentos mais infantis!… Até agora, tem sido o contrário. No mesmo rumo vai o final surpreendente e um tanto chocante de Rogue One, que, se alguém me perguntasse antes de eu tê-lo visto, eu diria ser impensável para um filme de Star Wars.


(Parêntese 1: Enquanto assistia a Rogue One, meu queixo caiu lá embaixo ao ver o legendário Peter Cushing – astro de terror dos anos 50, 60 e 70, falecido em 1994 – de volta ao papel de Grand Moff Tarkin, comandante da Estrela da Morte, que havia interpretado no Episódio IV. É claro que eu sabia que a computação gráfica já atingiu um grau de desenvolvimento que torna possível criar imagens extremamente realistas, mas há diferença entre saber isso na teoria e ver um cidadão morto há mais de 20 anos atuando num filme recém-lançado, de tal jeito que quem não soubesse do que se trata poderia pensar que ele não só continua vivo, como não envelheceu nada nos últimos 39 anos, feito os vampiros que matava em seus antigos filmes. Nesse passo, logo não serão mais necessários atores! Também graças aos milagres da computação gráfica, uma Carrie Fisher com pouco mais de 20 anos de idade faz uma rapidíssima aparição bem no final do filme. Pensando bem, o falecimento da atriz de carne e osso não deverá ser um empecilho tão grande assim.)

(Parêntese 2: Eu disse há pouco que Star Wars virou quase uma nova mitologia, o que, entre outros efeitos práticos, faz com que nós, fãs de toda a vida, tenhamos a saga tão entranhada no nosso imaginário, que nos parece impossível que algumas pessoas realmente não saibam de certas coisas. Isso causou um incidente engraçado quando Cintia, uma neófita nesse universo, quis ver as duas primeiras trilogias. Levei meus DVDs dos episódios I a VI para a casa dela, e assistimos a tudo juntos – primeiro a trilogia clássica, é claro, e depois a mais recente… Só que, durante aqueles comentários que são de praxe entre um filme e outro, eu deixei escapar a informação de que Darth Vader era pai de Luke e Leia! Claro que ela ficou danada por eu ter estragado a surpresa, mas que culpa eu tenho?! "Luke, eu sou seu pai" já virou uma expressão proverbial, a cena em que essa fala é dita foi reproduzida centenas de vezes em comédias, charges etc… O assunto já rendeu até livros de humor! Como é possível que alguém ainda não saiba??)

(Parêntese 3: Garoto ainda, ao me aboletar diante da TV ao lado de meu pai ou de algum amigo para assistir pela enésima vez à reprise de qualquer dos episódios da trilogia clássica [isso foi antes do tempo do DVD, e não tínhamos videocassete, de modo que reprises eram algo que merecia importância], eu sempre ficava agoniado quando começava a passar aquele inconfundível letreiro inclinado, porque, logo no início dele, dizia Episódio IV, ou V, ou VI… Pois, se aqueles eram os episódios quatro, cinco e seis, isso devia implicar, logicamente, que existissem os episódios um, dois e três, que eu não conhecia! É claro que não podia imaginar que os primeiros episódios, até então, só existiam como uma ideia na cabeça de George Lucas, e só seriam efetivamente filmados muitos anos depois. O mais inacreditável é que, na época, ninguém além de mim jamais pareceu reparar nisso, e hoje muita gente teima comigo que os dizeres Episódio IV, V e VI não existiam nas versões originais, e que só foram introduzidos nas edições lançadas depois que a segunda trilogia já existia… Tsc, tsc.)

Enfim, é muito bom ver que, depois de tanto tempo sem novidades (no cinema, pois nos livros, quadrinhos e games os lançamentos nunca pararam), Star Wars foi retomado com qualidade e com um vigor renovado. Todos ficaremos felizes se a franquia, num futuro relativamente próximo, conseguir rivalizar com Star Trek em número de longas-metragens, e talvez nem mesmo o surgimento de séries de TV seja um sonho tão impossível. Afinal, agora a coisa está nas mãos da Disney, e, se ela continuar demonstrando a mesma competência… Bem, aí nem mesmo o espaço será mais a fronteira final (opa, isso é de Star Trek). Que a força esteja com todos (ah, agora sim!).

Obrigado por tudo, Carrie Fisher. Que a força esteja com você também, onde você estiver agora.


sábado, novembro 05, 2016

Hannibal: a Série

Da última (e primeira!) vez que escrevi sobre um trabalho de Thomas Harris, a obra que comentei foi Hannibal: a Origem do Mal, que, dos livros a respeito do personagem Hannibal Lecter, foi o último a ser escrito e publicado, embora seja o primeiro por ordem cronológica. Na ocasião, tracei vagamente o plano de ler ou reler os outros livros, e, possivelmente, comentá-los um por um. Entretanto, antes que eu efetivamente pegasse o próximo da saga, que seria Dragão Vermelho, comecei a assistir à série de TV Hannibal, produzida pela NBC, e agora acabo de chegar ao final de seus 39 episódios, distribuídos em três temporadas, exibidas de 2013 a 2015. Se fizermos questão de encaixar a série na cronologia do personagem, seu lugar será precisamente entre Hannibal: a Origem do Mal e Dragão Vermelho, já que trata da fase da vida de Hannibal em que ele era um dos psiquiatras mais conceituados da cidade de Baltimore e, provavelmente, de todo o estado de Maryland, e quando, além de clinicar em seu consultó­rio, era frequentemente chamado a colaborar com a agência local do FBI, ajudando a montar perfis psi­quiátricos que pudessem orientar os investigadores na busca a criminosos insanos. Isso, é claro, foi an­tes de suas pró­prias atividades como serial killer serem descobertas, e de seu consequente confinamen­to na insti­tuição para, bem, criminosos insanos onde vamos encontrá-lo em Dragão Vermelho e O Si­lêncio dos Inocen­tes. Porém, se vocês ainda não assistiram à série e pretendem fazê-lo, estejam avisa­dos: seu criador, Bryan Fuller, não fez questão alguma de estar em conformidade com tudo aquilo que os leitores de Har­ris e os espectadores dos filmes baseados em seus livros já sabiam. Trata-se de uma rei­maginação radical do mundo que ro­deia Hannibal – e dele próprio.

Só para começar, a primeira coisa que salta aos olhos é a época em que os episódios estão ambientados. Sabemos, por meio dos li­vros e filmes, que Hannibal Lecter nasceu em 1933 e que testemunhou as provações que seu país natal, a Lituânia, atra­vessou durante a Segunda Guerra Mundial e em sua posterior anexação à União Soviéti­ca; aliás, as ex­periências traumáticas que o então menino Hannibal viveu durante a guerra foram, muito provavelmen­te, o gatilho que despertou o instinto assassino latente nele e que, de outra forma, talvez ti­vesse perma­necido adormecido durante toda a sua vida. Hannibal emigrou para os Estados Unidos no início dos anos 50 e estudou na prestigio­sa Universidade Johns Hopkins, em Baltimore. Seguindo essa cronologia, seus tempos de psiquiatra fa­moso deveriam coincidir com as décadas de 60 e 70; o filme Dragão Ver­melho informa que sua prisão teria acontecido em 1980. A série, entretanto, parece trans­correr na mes­ma época em que foi produzida e exibida, ou seja, em meados desta nossa própria e assus­tadora segun­da década do século XXI: os per­sonagens acessam a internet, portam smartphones e diri­gem carros mo­dernos. Se Hannibal (aqui inter­pretado pelo ator dinamarquês Mads Mikkelsen) estiver, como aparen­ta, nos seus 40 e poucos anos, en­tão deveria ter nascido no início dos anos 70, no mínimo 25 anos de­pois do fim da Segunda Guerra. Essa inconsistência não é explicada em momento algum da série.

Falar em internet me fez lembrar de outra coisa. Em Dragão Vermelho aparece o personagem Freddie Lounds, um repórter da imprensa sensacionalista, interpretado por Philip Seymour Hoffman, que es­creve para um tabloide – um jornale­co. Na série, ele, em vez disso, tem um site, mas o curioso não é isso, e sim o fato de ele ter virado ela: aqui, "Freddie" é o apelido de Fredericka (isso mesmo!) Lounds, papel de uma tal Lara Jean Chorostecki. Esse é apenas um exemplo do grau de liberdade que a série toma em relação a tudo o que já conhece­mos ligado à história de Hannibal. Na mesma direção, pelo menos um personagem que aparece em Dragão Vermelho e O Silêncio dos Ino­centes, e tem considerável importância em ambos (que, pela cronologia, teriam lugar depois) simplesmente… morre.

Outros persona­gens não trocaram de sexo nem morreram, mas nem por isso dei­xaram de sofrer grandes mudanças. Um deles é Will Graham, que, junto com Hannibal, é uma das figu­ras centrais. Em Dragão Vermelho ele era inter­pretado por Edward Norton, e era um agente do FBI, o responsável pela prisão de Hannibal; na série, o papel per­tence a Hugh Dancy, e Graham não é um agente, apenas um professor que leciona criminolo­gia para os trainées do FBI, e que, teoricamente, não deveria ter qualquer envolvimento direto com in­vestigações. Acontece que o cara possui um dom raro. Ao ver-se no cenário de um crime violento, consegue re­criar mentalmente o ocorrido, colocando-se no lugar do assassino, compreendendo seu modus operan­di, sentindo suas emoções e, muitas vezes, desco­brindo suas motivações, por mais loucas que se­jam. As ce­nas em que Will faz isso fazem com que pareça quase uma habilidade sobrenatural. Minto: parece mesmo sobrenatural. Não é preciso dizer que essa capaci­dade é extremamente útil na elucidação de as­sassinatos, e por isso a ajuda de Graham é frequen­temente solicitada pelo chefe da seção de Ciên­cias do Com­portamento, Jack Crawford – que, por sinal, também sofreu uma metamorfose, aliás mais uma. Em O Silêncio dos Inocentes, Crawford, vivido por Scott Glenn, tinha a cara de um agente de escri­tório, mais acostumado ao trabalho de coordenação que a sair pessoalmente atrás de assassinos; em Dragão Ver­melho ele era interpretado por Harvey Keitel, e pare­cia um delegado de polícia veterano; em Hanni­bal, a série, Crawford aparece em sua encarnação mais durona: o ator Laurence Fishburne deu ao per­sonagem um jeitão de ex-fuzileiro. Crawford está ci­ente do quanto essas colaborações custam a Gra­ham, ho­mem afável e bondoso, que não suporta ver cães abandonados e por isso tem uma verdadeira matilha em casa. Sua natureza terna se choca terrivel­mente com os detalhes medonhos de todos aqueles assassi­natos, o que vai gradualmente abalando sua sanidade mental. Crawford sofre ao ver isso aconte­cer, mas o fato é que a participação de Graham salva vidas, e por isso ele não pode se dar ao luxo de dis­pensá-la – e Graham, embora não sendo obrigado, não tem coragem de negá-la. Will tem uma queda evidente por uma colega de trabalho, a psiquiatra Alana Bloom (papel da linda atriz canadense Caroline Dhaver­nas), ex-aluna de Hannibal, mas, embora não seja indiferente a ele, ela parece em dúvida sobre se seria uma boa ideia os dois se envolverem. O próprio Hannibal nunca está muito longe, embora haja episó­dios em que outros personagens (geralmente Will Graham) aparecem mais que ele.

Li em algum lu­gar que, ao aceitar o papel-título na série, Mads Mikkelsen declarou que, apesar de sua admira­ção por Anthony Hopkins, não tinha a intenção de que "seu" Hannibal fosse igual ao dele. E, pelo visto, falava sério. Não podemos saber até que ponto Mikkelsen pôde influenciar os roteiros, mas o fato é que o per­sonagem, tal como interpretado por ele, não difere da versão de Hopkins apenas por uma questão de es­tilo e jeito de ser, mas também por diversos atos que pratica ao longo da série, e que o Hannibal de Hopkins ou faria de modo diferente, ou não faria em absoluto. O Hannibal de Hopkins tem um pendor para a ironia e o deboche, e por vezes demonstra um humor sutil e ácido; o de Mikkelsen é mais sério que um capincho, como dizemos aqui no Rio Grande do Sul: se esboçou um levíssimo sorriso, quase im­perceptível, duas vezes em toda a série, foi muito. Hopkins: Hannibal mata e come pessoas, mas esses atos, quase sempre, estão ligados a um senso de justiça – extremo e estranho, mas, ainda assim, um senso de justiça; quer dizer, é claro que não podemos aprovar o que ele faz, mas o entendemos. É muito raro que pratique uma crueldade gratuita. Mikkelsen: Hannibal também não mata aleatoriamente, mas é mais comum que o faça para proteger seus segredos e interesses do que por justi­ça; além disso, por ve­zes coloca pessoas em situações enlouquecedoras, de propósito, só pela curiosida­de de ver como irão rea­gir. Reitero que é difícil saber até onde as novas características do personagem devem ser atribuídas a Mads Mikkelsen e até onde são obra de Bryan Fuller, mas que ele está radical­mente di­ferente, isso, sem dúvida, está.

Novamente, preparem-se: o aviso de "recomenda-se discri­ção ao assistir", que aparece no início de todos os episódios, não é uma formalidade. A série é um desfile de mortes bizarras, perpetradas por serial killers tão insanos que, comparado com eles, Hannibal quase parece um cara normal. Há um sujeito que fabrica cordas para instrumentos musicais usando tripas hu­manas em vez das de animais. Outro é uma espécie de lobisomem hi-tech. Pelo menos três usam cadá­veres humanos como matéria-prima para instalações artísticas, e um, como terreno de plantio. Só em fi­car se pergun­tando se existirá mesmo tanta gente (?) com esse tipo de criatividade macabra, você já pode perder umas horas de sono. Volta e meia há uma cena de Hannibal cozinhando ao som de música clássica, mas com isso vocês vão se acostumar fácil. Para ele não parece haver diferença entre preparar um prato com ingredientes comuns adquiridos em sua delicatessen favorita, ou com pedaços de alguém.


Paralela­mente às buscas a esses assassinos (buscas essas nas quais Hannibal colabora com seu conhecimento psiquiátrico), Jack Crawford e seus subordinados nas Ciências do Comportamento lidam há anos com os crimes de um serial killer misterioso conhecido como o "Estripador de Chesapeake" (do nome do es­tuário que banha, entre outros, os estados de Maryland e Virgínia, sua área de atuação). Esse Estripa­dor, vocês adivinharam, é Hannibal em pessoa, que, como a maioria dos serial killers, tem um certo or­gulho de suas realizações, como se fossem algum tipo de obra artística, e ainda mais orgulho de fazer tudo o que faz enquanto passa boa parte do tempo convivendo com o pessoal do FBI, que o respeita, admira e tem suas opiniões em alta conta – ao mesmo tempo em que, sem saber, o caça febrilmente e sem sucesso. Mesmo precisando, por motivos óbvios, abster-se de reclamar o "mérito" de seus assassinatos, Hannibal quer receber reconhecimento por eles, e por esse motivo não fica nada satisfeito quando o Dr. Abel Gideon (outro médico psicopata, interpretado por Eddie Izzard, e interno do mesmo instituto onde Hannibal eventualmente iria parar) reivindica para si os crimes do Estripador de Chesapeake. Isso serve de estopim a uma bizarra batalha de egos entre assassinos, que é um, mas nem de longe o único conflito psicológico insólito que encontramos na série. Alguns desses conflitos são criações originais de Fuller, enquanto outros serão reconhecidos por quem leu os livros de Thomas Harris. Personagens conhecidos aparecem, embora tanto eles quanto suas histórias tenham sofrido transformações para se encaixar no universo recriado para a tela da TV.

Um desses personagens é Mason Verger, apresentado aos leito­res no último livro sobre Hannibal, intitulado apenas com o nome do personagem. Verger é um jovem milionário e inveterado abusador de crianças, que, graças ao poder e influência de sua família, escapou de qualquer pena mais severa, sendo "condenado" apenas a serviços sociais e a fazer terapia – com o Dr. Lecter. Logo fica claro para Hannibal que seu paciente não tem intenção alguma de se corrigir; Mason não apenas não leva a terapia a sério como tenta suborná-lo e, possivelmente, também seduzi-lo (há in­sinuações nesse sentido tanto no livro quanto no filme). Movido por seu já mencionado senso de justiça, Hannibal "cuida" de Mason à sua maneira; não fica cla­ro se o deixa com vida de propósito, mas o riqui­nho fica desfigurado e inválido, o que, para ele, é prova­velmente um casti­go muito pior que acabar no fogão de Lecter. Daí em diante, sua vida só tem um obje­tivo: vingar-se de Hannibal da maneira mais pa­vorosa imaginável. Não vou falar mais de Mason aqui, tanto para não dar spoiler para quem for ver a série, quanto pelo fato de que ainda tenho planos de falar do livro Hannibal, mas podem estar certos de que ele é um dos vilões mais diferentes e terríveis que já vi na literatura de suspense. No filme, Verger era interpretado pelo excelente Gary Oldman, embora fos­se impossível reco­nhecê-lo sob a maquiagem grotesca da cara desfigurada do personagem; na série, o papel é de Michael Pitt, que, a meu ver, captu­rou bem a combinação de maldade e frivolidade que carac­teriza o persona­gem antes do incidente. Já sua irmã e vítima, Margot, que existe no livro e na série, mas não no filme, é interpretada por Katherine Isabelle – e, para variar, enormemente diferente do que era na origem. Fuller chegou a dizer que tinha planos de que a agente Clarice Starling, tornada famosa pela interpretação de Jodie Foster em O Silên­cio dos Inocentes, também aparecesse, mas isso não havia se concretizado até o fim da terceira e última temporada. Também há boatos de uma possível retomada da série, mas, até o momento em que escrevo, não encontrei nenhuma informação concreta a respeito.

Acima de todas as subtramas, está sempre a relação entre Hannibal e Will Graham, uma relação cuja exata natureza nunca conseguimos descobrir. Os dois não apenas se compreendem: na ver­dade, cada um é a única pessoa ca­paz de compreender o outro, o que poderia fazer deles melhores ami­gos, quase almas gêmeas – mas nada tão simples assim acontece. Will ora se apoia totalmente em Han­nibal e pre­cisa desesperadamente dele, ora o odeia ao ponto de desejar sua morte, mesmo sem ter a confirmação das terríveis (e corretas) suspeitas que nutre. Já Hannibal é incapaz tanto de amor quanto de ódio; para ele, Will é uma pessoa digna de sua atenção, o que, pela sua cartilha, é um enorme elogio; o fato de que essa atenção, não raro, assume a forma con­creta de ciladas e tortura psicológica é para ele uma mera consideração secundária.

Sei que já fiz alertas demais para um post só, mas há mais um sem o qual não posso terminar: Hannibal não é uma série fácil de assistir, e não só por causa das ima­gens grotescas que volta e meia ocupam a tela. Muitos episódios são "psicológicos", o que significa que envolvem pouca ação de fato e, frequentemente, exibem cenas que não sabemos se são reais ou apenas as alucinações de alguém – em geral, Will Graham. Bem, pelo menos até que imagens claramente aluci­natórias se intro­metam no que até aí tinha aparência de realidade. Em seu mundo psicodélico, no qual vai se embre­nhando cada vez mais à medida em que sua sanidade vai ficando comprometida, Will vê Hannibal sim­bolizado ora por um enorme cervo negro, ora por um ser semelhante ao Deus Chifrudo da mitologia pri­mitiva – meio homem, meio cervo. O porquê da escolha do cervo, um herbívoro inofensivo, para repre­sentar um matador como Hannibal, é questão aberta à interpretação, mas tenho para mim que foi para fugir da obviedade de simbolizá-lo em um lobo ou outro animal predador. Esses episódios mais "men­tais" requerem muita atenção e paciência, e por vezes se tornam, numa palavra, cansativos. Aí vocês po­dem me perguntar: vale a pena? E a respos­ta só pode ser uma: é claro que vale. Entretanto, só recomen­do a série para cabeças fortes e tranquilas, que não achem que narrativa boa é a que aconte­ce em veloci­dade de videoclip e que, por amor a um excelen­te enredo geral, estejam dispostas a encarar alguns mo­mentos indigestos. E principalmente, desenca­nem de ficar ligando o que verão nesta série com o que já conheci­am dos livros e filmes. Aceitem que é uma recriação e mergulhem na história sem outras preocu­pações.

Um comentário prático à guisa de encerramento: cá pra nós, o jeito como Hannibal foi lançado em DVD no Brasil foi uma grande sacana­gem! Primeira temporada, volume 1, e Primeira temporada, volume 2? Pra quê? Quero dizer, pra que, além de obrigar o fã a pagar praticamente o do­bro, já que cada "volume" custa pouco menos do que cus­taria a temporada inteira, se lançada de uma vez só, numa única embalagem? O pior é que isso parece estar se tornando uma prática comum: já vi outras séries que estão sendo lançadas do mesmo jeito. De­pois, com que moral essas com­panhias vão poder reclamar se o público preferir recorrer à pirataria?

Por fim, isto agora os fãs de Arquivo X vão achar interessante: Gillian "Scully" Anderson aparece no pa­pel da Dra. Bedelia Du Mau­rier, a psiquiatra de Hannibal – que, como todo bom psiquia­tra, também tem sua própria psiquiatra. Gillian aparece primeiro de forma esporádica, para, lá pelo iní­cio da tercei­ra tempo­rada, assumir uma importância central na trama.

sexta-feira, setembro 16, 2016

O Tigre

Salvo por alguns inevitáveis e esporádicos acidentes de percurso, a convivência milenar entre tigres e seres huma­nos tem sido, de modo geral, pacífica, quanto mais não seja porque, durante a maior parte de sua história, os ho­mens não possuíam armas suficientemente poderosas que os encorajassem a enfrentar um animal tão perigoso sem necessidade. Como regra, enquanto os tigres não atacassem pessoas, e não cobrassem um tributo excessivo dos re­banhos domésticos, os humanos os deixavam em paz. Tem sido assim desde tempos imemoriais, das taigas geladas da Sibéria até as selvas tropicais da Indonésia, e das praias do Mar Cáspio até os confins orientais da Ásia – quer di­zer, em todas as paragens habitadas por tigres e humanos. Só o advento dos séculos XIX e XX, trazendo consigo ar­mas de fogo modernas e o conceito de "caça esportiva", é que mudou essa situação. É verdade que a medicina tradi­cional chine­sa – tão admirável em algumas coisas, tão estúpida em outras – há muito atribui poderes curativos (e sem qual­quer base em fatos) a diversos pedaços do tigre; a impressão que dá é a de que existe um raciocínio de que, se uma coisa é rara e difícil de obter, então ela necessariamente deve ter propriedades milagrosas. Em consequên­cia, o sangue do tigre, o pó de seus ossos, sua bílis, órgãos internos e várias outras partes valem um alto preço, mas, enquanto o bi­cho tinha que ser caçado com arco e flecha, lança, ou com mosquetes rudimentares de um só tiro, ha­via pou­quíssima gente disposta a encarar a bronca, por maior que fosse a recompensa em jogo. Armas mais eficien­tes mu­daram as coisas – não admira que o tigre-da-china esteja quase extinto. Não foi tão melhor na antiga União Soviéti­ca, cujo vasto território abrigava duas subespécies: o tigre-do-cáspio, extinto desde a década de 1960, e o ti­gre-da-sibéria, ou tigre-de-amur, o maior e mais possante de todos os tigres, que teve um pouco mais de sorte por habitar regiões muito re­motas e pouco populosas.

Porém, essa sorte não duraria para sempre. Nos primeiros tempos do comunismo so­viético, os tigres eram considerados uma praga, e o seu extermínio era incen­tivado pelo governo. Mais ou menos na mesma época em que o tigre-do-cáspio foi extinto, e com a população de tigres-­siberianos reduzida a poucas dezenas de exemplares na natureza, felizmente parece que alguém mais esclarecido teve acesso a um cargo no qual dispunha de poder para fazer algo a respeito, e foram promulgadas leis protegen­do os animais. Com isso, o número de tigres-siberianos subiu para algumas centenas ao longo das décadas seguin­tes, e conservacionistas do mundo inteiro já se sentiam mais tranquilos, quando chegou a década de 1990 – a déca­da da Perestroika, a reestruturação política e econômica que pôs abaixo a "Cortina de Ferro" que isolava a União Soviéti­ca do resto do mundo. A isso seguiram-se, sem muita demora, o fim da própria União Soviética e a implosão do co­munismo. Isso tudo teve duros efeitos sobre a sociedade e a economia da Rússia, com um empobrecimento ge­ral da população e um aumento drástico do desemprego. Muitos russos, sem outra alternativa de sobrevivência, passa­ram a tentar viver do que as florestas da Sibéria ofereciam, fosse por meio da caça de diferentes animais ou da ex­tração de madeira – invadindo o habitat dos tigres. Pior ainda, o relaxamento do controle das fronteiras permitiu a entra­da de caçadores ilegais vindos da China em busca dos tigres que já não existiam em seu país.

No entanto, Vladi­mir Markov, o caçador ilegal de 46 anos que foi morto por um tigre, nos arredores do vilarejo siberiano de Sobolo­nye, em de­zembro de 1997, não era chinês, e sim russo mesmo. A guarda florestal imediatamente chama a equipe local do pro­jeto conhecido como Inspec­tion Tiger, subordinado ao Departamento de Conservação e Caça. A equipe é lidera­da por Yuri Trush, ex-militar e experiente caçador, cujo trabalho, agora, consiste basica­mente em proteger os tigres contra caçadores ilegais – só que, na eventualidade de os papéis de caçador e presa se­rem troca­dos, isso tam­bém é de sua alçada. Quando Trush e seus companheiros chegam ao local, constatam que pouca coisa restou de Markov para ser vista; o mais desconcertante, entretanto, é que, a julgar pelos rastros e outros sinais deixados na cena da morte (sinais esses que um caçador experiente pode ler como se estivessem escritos num livro), o tigre não ma­tou Markov num encontro fortuito, e nem mesmo para se defender: ele o espreitou e caçou, com inteligência e paci­ência, talvez durante dias.


A primeira hipótese levantada é a de que Markov tivesse capturado um filhote a fim de vendê-lo, e sofrido a vingança da mãe, mas um dos companheiros de Trush logo descarta essa possibilida­de, por­que os rastros encontrados na neve são grandes demais para pertencerem a uma fêmea. E, como se descobre de­pois, ele está certo: o tigre responsável pela morte do caçador é um macho de cerca de seis anos – jovem, mas já adulto, e especialmente grande. No decorrer da mesma investigação, os agentes do Inspec­tion Tiger descobrem uma armadilha, obviamente instalada por Markov, e destinada à captura de tigres. Ou seja, é a prova de que o fale­cido não simplesmente lidava com incidentes ocasionais envolvendo tigres, como todo caçador da taiga está sujeito a ter: ele estava deliberadamente caçando os felinos, um crime grave perante a lei russa, mas também um negócio muito lucrativo.

Uma mente civilizada reluta em estabelecer o nexo entre Markov caçar tigres e o fato de ter sido morto por um. Afinal, nenhuma fera é capaz de desejar vingança, e tampouco de executá-la, não é mesmo? Um tigre pode atacar um caçador que atire nele, que tente roubar carne de uma presa que ele abateu, ou que ameace seus filhotes, e – embora isso seja muito raro – pode até mesmo atacar um ser humano como o faria com um ani­mal qualquer, levado simplesmente pela fome, mas todas essas situações podem ser atribuídas ao instinto de auto­preservação ou ao de defender a prole. Vingança requer compreensão de causa e consequência, capacidade de pla­nejar, e também de experimentar um sentimento semelhante ao ódio – tudo coisas demasiado complexas para um animal dito "irracional". Entretanto, a relutância em admitir essa possibilida­de não é compartilhada por povos nati­vos da Sibéria, como os nanai e os udeghe, que há séculos e milênios vivem em íntima comunhão com a taiga (um tipo de floresta característico das latitudes boreais). Para os caçadores desses povos, que tiram da floresta o susten­to de suas famílias, tal como seus ancestrais o fizeram desde tempos muito antigos, o tigre é tão inteli­gente quanto um homem, igualmente capaz de ser tanto generoso quanto cruel, de guardar rancor ou de perdoar, e, por tudo isso, é digno de ser tratado com respeito e cautela. Conversando com esses caçado­res nativos, Yuri Trush e seus ho­mens vão desenvolvendo uma compreensão diferente do incidente que tirou a vida de Markov – e que se repete al­guns dias depois: desta vez, a vítima é um jovem caçador de 20 anos, Andrei Po­chepnya, para quem Markov havia sido, além de vizinho e amigo, uma espécie de mentor. Se Pochepnya estava atrás de vingança, ou se simplesmente topou com o tigre enquanto caçava para pôr comida na mesa da família, não fica claro, mas o problema nas mãos de Trush e sua equipe fica cada vez maior. Sem alternativa, os homens dão iní­cio a uma caçada perigosa em meio a um ambiente no qual o tigre parece capaz de desaparecer sempre que assim deseja, e, embora o animal esteja ferido e pareça raivoso, age com uma sagacidade quase sobrenatural, tornan­do sua caça um desafio ainda maior, e fazendo da leitura desta história uma experiência que o leitor não esquecerá fa­cilmente.

Citar críticas elogiosas feitas por escritores de renome ou por órgãos de imprensa conceituados é uma estratégia muito comum para alavancar as vendas de livros de todos os gêneros, mas uma das que aparecem na contracapa de O Tigre me parece certeira: al­gum crítico do jornal francês Le Monde teria escrito que o livro é "o equivalente de Moby Dick para a floresta", e eu concordo, por pelo menos duas boas razões. A primeira é a combi­nação mortífera de ferocidade e inteligência, de­monstrada tanto pelo grande cachalote branco de Herman Melville quanto pelo tigre homicida caçado por Trush e seu grupo – o que confere a ambas as narrativas um clima aflitivo impossível de compreender sem lê-las. A outra é que o esquema geral de Moby Dick parece ter servido de inspira­ção a John Vaillant: Melville intercalava capítulos que narravam a caçada ao cachalote com outros de conteúdo en­ciclopédico, versando sobre cetologia, sobre a ativi­dade baleeira e assuntos afins; Vaillant alterna a investigação das mortes de Markov e Pochepnya e a perseguição ao tigre com dissertações sobre aspectos históricos, geográficos e humanos da Rússia em geral e da Sibéria em particu­lar, e com uma ampla e fascinante pesquisa na qual a antropo­logia dialoga com a história natural.

Os grandes primatas (entre eles nós, hominídeos) e os grandes felinos evoluí­ram de forma paralela, em muitos casos partilhan­do o mesmo habitat, e, durante 90 por cento do tempo, ou mais, os respectivos papéis eram muito claros: eles eram os predadores dominantes, e nós, presas eventuais. Nosso medo atávico do escuro (e quando digo "nosso", não que­ro dizer apenas dos humanos, mas dos grandes primatas em ge­ral) deve-se provavelmente ao fato de nossos ances­trais, durante pelo menos cinco milhões de anos, terem desen­volvido o hábito de buscar abrigo tão logo anoitecia, sob pena de tornarem-se o jantar de algum dentre uma longa lista de predadores noturnos, lista essa na qual leões, leopardos e outros felinos ocupavam lugar de destaque. Não tínhamos a menor chance contra essas feras: não po­díamos nem por sonhos rivalizar com sua força ou agilidade, e não tínhamos presas ou garras. Com o tempo, fomos encontrando maneiras de compensar essas desvantagens usando nossos dois principais trunfos – nosso cérebro e nossa habilidade manual. Aprendemos a fabricar armas cada vez mais eficien­tes e a agir em equipe de formas astu­tas, o que, aos poucos, equilibrou a balança, e depois a fez pender para o nosso lado. A partir daí, parece que passa­mos a merecer algum respeito da parte de nossos vizinhos felinos – pois, como Vaillant demonstra com base em di­versos estudos de especialistas, não somos os únicos animais capazes de incorporar novos conceitos e mudar nossos costumes de acordo com eles. Por muito tempo, os felinos viram os hu­manos como presas fáceis, mas, a partir do momento em que nossos ancestrais começaram a andar munidos de obje­tos pontiagudos e cortantes que podiam cau­sar sérios estragos, as feras passaram a evitá-los. Por outro lado, mes­mo que agora fosse capaz de se defender, o ho­mem primitivo não tinha qualquer desejo de procurar briga com ani­mais perigosos, a menos que fosse absoluta­mente necessário – um comportamento que foi passando de geração em geração, tanto entre felinos quanto entre humanos, até que se chegasse a um acordo de respeito mútuo, aquele do qual eu fala­va no começo do texto. Apesar disso, a escuridão, e o que quer que possa haver nela, continuaram e con­tinuam a nos intimidar, e devemos isso, em grande parte, aos ti­gres e seus parentes. Para mim, uma das coisas mais fasci­nantes a respeito da antropologia (e, mais especificamen­te, da parte dela que trata dos nossos ancestrais) é o fato de nos permitir compreender os moti­vos de sermos como somos.

O tigre-siberiano é um dos mais belos animais que alguém seria capaz de imaginar, e também um dos mais aterradores. Mais peludo e corpulento que seus paren­tes de regiões quentes, é uma perfeita má­quina de ma­tar que pode atingir (e, por vezes, ultrapassar) 300 quilos de peso e três metros de comprimen­to to­tal, medindo do fo­cinho à extremidade da cauda. Seus dentes cani­nos têm o comprimento de um dedo indica­dor, a mandíbula é pode­rosa o suficiente para partir o fêmur de um boi com uma única mordida, as garras são cur­vas como ganchos e afia­das como navalhas. Todo esse arsenal está a ser­viço de um cérebro astuto de predador: tal­vez por viverem e caça­rem sozinhos, os tigres parecem ter boa capacida­de de plane­jamento (sim!) e de lidar com situa­ções inesperadas, muito mais que seus primos, os leões. Nenhum animal da tai­ga está a salvo de seu apetite: o tigre pode se alimentar de qualquer coisa, de ratos-silvestres a bisões adultos, e, pasmem, até mesmo de animais que, em qualquer outro lugar, costumam ocupar o topo da cadeia ali­mentar, como ursos e lobos (!). Entretanto, parece que suas presas fa­voritas são cervídeos de grande porte (alce, rena, wapiti) e javalis.

Estima-se que existam hoje cerca de 500 ti­gres-siberianos em liberdade, mais uns cem em zoológicos e cen­tros de preservação em diferentes países. É o sufici­ente para que a subespécie não corra pe­rigo imediato, mas há outro fa­tor complicador a colocar em risco seu futuro: a gradual redução do espaço vital disponí­vel devido à ocupa­ção hu­mana. Foi-se o tem­po em que "Sibéria" designava uma região isolada e quase despo­voada, para onde eram mandados os prisioneiros políticos: hoje ela tem grandes ci­dades e uma população superior a 25 milhões de habi­tantes. Para complicar, o ti­gre, como todo predador de gran­de porte, necessita de um território vas­to – algo em tor­no de 450 quilômetros qua­drados para um macho adulto, sen­do que essa área pode sobrepor-se aos territórios de até duas ou três fêmeas. Embo­ra a Rússia tenha estabeleci­do reservas naturais visando tanto a preser­vação do tigre quanto de outras espéci­es, o sim­ples tamanho dessas reservas torna quase impossível um controle cem por cento efeti­vo; além disso, mais difí­cil que impedir que caçadores entrem, é impe­dir que os animais saiam. Há planos de trans­ferir certo número de ti­gres para o Par­que Pleistoceno, uma reserva natural no nordeste da Sibéria, onde biólogos estão tentando restabe­lecer as condi­ções ecológicas que lá existiam perto do final da última Era Gla­cial, por meio da reintrodução de espé­cies que habi­tavam a região na época. Mesmo antes que a área se tornasse um parque, já vi­viam nela animais como ur­sos, lobos, alces, renas e ja­valis; desde então, foram reintroduzidos com su­cesso bois-al­miscarados, bisões, wapi­tis, ca­valos selvagens, saigas e linces (e, se o projeto de clonagem que está ten­tando trazer de volta os mamutes for bem-­sucedido, o local será, sem dúvida, um lar confortável também para esses gigantes do passado – isso não seria for­midável??). Ainda estão em andamento os estudos sobre a viabilidade de ter tigres vi­vendo lá, e, de qualquer for­ma, será necessário aguardar que a popula­ção de herbívoros aumente até atingir núme­ros que permitam que sir­vam de alimento aos grandes feli­nos sem peri­go para sua própria conservação. Outra ideia, ainda mais ambiciosa, consiste em repovoar com tigres-siberianos as áreas antigamente ocupadas pelo extin­to tigre-do-cáspio, o que re­presentaria um aumento importante do espaço vi­tal disponível para a subespécie, mas isso ainda é uma possibilida­de distante. Por enquanto, o tigre-­siberiano só pode contar mesmo com as reservas que já ocupa, no extremo orien­te russo.

Acho que foi Jacques Cousteau quem declarou que ficava atônito de pensar que, durante o tempo de duração de sua vida, o homem, de­pois de milênios lutando contra a natureza pela sobrevi­vência, teve que fazer um giro de 180 graus e passar a empe­nhar-se em defendê-la, porque percebeu – e esperemos que não tenha sido tarde demais – que é preciso encontrar um equilíbrio. Continuando o pensamento de Cousteau, eu diria que o tigre é um perfeito exemplo concreto dessa ideia mais geral sobre a natureza. Junto com outras feras predadoras, ele fez parte dos nossos pesa­delos na pré-his­tória, e, ao longo de toda a construção da nossa cultura, foi sempre temido – pri­meiro, só temido; depois, temido, admirado e cobiçado de morte. Hoje, temos que nos esforçar para salvar os últi­mos deles, se não quisermos ser os responsáveis por legar às gerações futuras um mundo onde os tigres não exis­tam, um mundo, por­tanto, despojado de um pouco (na verdade, um muito) de sua beleza e terror. Eu fico pensando no quanto vai ser triste se, daqui a um ou dois séculos, uma criança de então abrir um livro, maravi­lhar-se com a ilustração represen­tando um gigan­tesco gato listrado de amarelo e preto, tão forte, majestoso, fasci­nante e terrível, e sentir a frustra­ção de saber que tal animal não existe mais, que nunca lhe será possível ver um de­les vivo e respi­rando – o mesmo tipo de frustração que eu, tanto em criança quanto ainda hoje, sentia e sinto ao abrir um livro e fi­car olhando com espanto para ima­gens de arsinotérios, gliptodontes, entelodontes, rinocerontes peludos e tantas outras feras magní­ficas que nunca vou ver a não ser em livros mesmo. Na verdade, acho que será mais triste ainda, porque essa crian­ça do futuro esta­rá olhando para fotografias, e não para pinturas; para um ani­mal cuja extinção não foi natural, e sim culpa do ho­mem. E ficará sabendo que tivemos uma chance de salvar o ti­gre, e não o fizemos. O que seria uma grande, grande vergonha.

sábado, março 19, 2016

Dança Macabra

Embora eu seja um fã de Stephen King (como quem acompanha este blog, se é que alguém acompanha, já deve ter percebido), não tenho a pretensão de ser um grande conhecedor de sua obra… E vamos concordar, ser um grande conhecedor de King é uma empreitada que requer um tremendo investimento em termos de tempo, dinheiro e espaço na estante: vai ser prolífico assim lá no Maine! Portanto, não estou (muito) envergonhado de só agora ter lido Dança Macabra, cuja publicação original é de 1981.

Trata-se de uma leitura muito interessante, além de muito útil para todos os aficionados do terror em qualquer de suas apresentações: literatura, cinema, TV, quadrinhos e o que mais imaginarmos. H. P. Lovecraft escreveu O Horror Sobrenatural na Literatura, sobre o qual já falei aqui uma pá de vezes, mas que nunca me senti à vontade para transformar em assunto de um post próprio; já Dança Macabra, tão logo percorri suas 20 ou 30 primeiras páginas, já deixou claro o fato de que eu teria que escrever sobre ele. Por quê? Não sei. Talvez (e isso não passa de um palpite) porque já tenha lido mais coisas de King que de Lovecraft, e por isso tenha a sensação de entender melhor como funciona a cabeça do autor. No mais, acredito que o paralelo (não é uma comparação) procede: cada um procurou apresentar um panorama da tradição que o precedeu na ficção fantástica. Lovecraft, em sua época, praticamente só tinha a literatura da qual tratar, e, nesse campo, cobriu quase três séculos de obras e autores europeus e norte-americanos. Já King, escrevendo entre o fim da década de 70 e o começo da de 80, precisava cobrir uma gama muito maior de mídias, e, talvez por isso, optou por restringir o arco de tempo a ser abrangido pelo ensaio: seu assunto propriamente dito é a produção de terror das décadas de 50, 60 e 70, embora seja impossível evitar, vez por outra, uma incursão no passado em busca das origens de determinados horrores. Também à diferença de Lovecraft, King não se detém apenas em obras de terror, dando alguma atenção também à fantasia e à ficção científica, em especial a segunda, já que, durante o período que ele analisa, ficção científica e terror frequentemente interagiram, dialogaram e se interpenetraram, na literatura e sobretudo no cinema.

Já que estamos falando de gêneros, peço a indulgência de meus leitores para também expor um pouco de teoria de minha própria lavra. Gosto de agrupar ficção científica, terror e fantasia (na literatura, claro está) debaixo de um mesmo e enorme guarda-chuva que chamo de "literatura de imaginação". Os três têm em comum o fato de não terem suas temáticas limitadas pelas amarras do "possível" (para não falar no fato de, muitas vezes, serem produzidos e/ou consumidos pelas mesmas criaturas estranhas), mas também têm entre si grandes e importantes diferenças. Desse trio, a ficção científica é a que mantém maior distância em relação a seus "irmãos" terror e fantasia, os quais, por sua vez, são muito próximos um do outro – King chega a dizer que o terror não é propriamente um gênero, e sim um subgênero dentro da fantasia, uma asserção com a qual eu não sei se concordo. E o que é que causa essa distância? Bem, a ficção científica é um gênero jovem, não no sentido de atrair o público jovem, mas no de existir há pouco tempo mesmo: seus primeiros expoentes dignos de nota são do século XIX. O terror e a fantasia, por outro lado, são muito antigos; nem sequer é possível fixar um marco exato de onde começam, herdeiros diretos que são da mitologia e do folclore – coisas que acompanham nossa espécie desde que ela passou a merecer o nome de humana. E, se a ficção científica teve um início recente, isso foi porque ela só pôde aparecer quando a ciência em si já estava madura a ponto de poder servir de inspiração para um gênero literário. Temos, então, que histórias de ficção científica são aquelas baseadas na ciência, ou, ao menos, em uma imitação aceitável de ciência; é um gênero que precisa oferecer explicações. A fantasia e o terror não precisam de explicações: sua matéria é a magia, o misticismo e o sobrenatural. Numa palavra, o inexplicável.


É claro que isso não significa que não possam ocorrer crossovers entre esses gêneros – e aqui devolvo o microfone a King. Obrigado, mestre. Logo no começo do livro, ele usa a miríade de filmes sobre invasões alienígenas que o cinema norte-americano produzia e exibia durante seus tempos de infância como ponto de partida para tecer uma reflexão. King, que nasceu em 1947, frequentemente se refere a sua própria geração como os "filhos da guerra" – a geração que colheu os frutos da vitória na Segunda Guerra Mundial. Todos os frutos. Por um lado, essa geração de norte-americanos cresceu em meio a uma prosperidade econômica com a qual seus pais e avós só poderiam ter sonhado; por outro, também cresceu em plena Guerra Fria, cercada pela paranoia constante da "ameaça comunista" (pois a União Soviética, outrora a mais importante aliada dos Estados Unidos contra as potências do Eixo, lideradas pela Alemanha nazista, era agora o inimigo a ser temido) e, pior ainda, convivendo com o fato de que uma guerra nuclear de extermínio total poderia estar à distância de um apertar de botão. A pergunta é inevitável: o que metia medo naquelas crianças e jovens? Por muito tempo, foram esses filmes (em geral toscos, é verdade) sobre invasores do espaço, que resultavam numa alegoria sobre a possível investida do inimigo – e, como bem observa o autor, a alegoria estava lá, pouco importa que o diretor tivesse feito a coisa de propósito ou que (nas palavras de King) o subtexto tivesse simplesmente acontecido. O resultado final de tudo era que, embora esses filmes partissem de elementos da ficção científica – civilizações extraterrestres, espaçonaves –, o efeito obtido era de terror. Em outro exemplo semelhante, King nos apresenta a lenda do "maníaco da mão de gancho", que era contada ao redor de muitas fogueiras de acampamento quando ele era garoto (e antes, e depois) e explica por que ela não deixaria de ser terror, mesmo que alguém decidisse recontá-la substituindo o maníaco por um ser de outro planeta ou de outra dimensão.

Continuando com suas teorizações, o autor apresenta a ideia – surpreendente de certa forma, mas que não deixa de fazer sentido – de que, por mais que o terror pareça um gênero transgressor (já que muitas vezes choca, seja com as alusões sexuais, ousadas para a época, de um Drácula, ou com o horror explícito de revirar o estômago de um Alien, o Oitavo Passageiro), o papel do escritor de terror, no fundo, é o de um agente do status quo, ou, se preferirem, o de um guardião da normalidade. Seguindo essa linha de raciocínio, a narrativa de terror não seria mais que uma variação da velha dicotomia "nós versus os outros". "Nós", nesse caso, significaria a sociedade e o modo de vida que conhecemos, e que talvez não propriamente amemos, mas com os quais, ao menos, nos sentimos confortáveis, rodeados pelo que nos é familiar; os "outros" seria qualquer tipo de criatura ou elemento que surgisse para subverter a ordem estabelecida dessa sociedade e desse modo de vida, quer falemos aqui de fantasmas, vampiros, serial killers ou alienígenas malvados – ou de qualquer das inúmeras coisas às quais esses seres podem servir de metáfora. Caberia ao autor, então, deixar bem marcada a distinção entre… Putz, eu estava pronto para escrever "entre o bem e o mal", mas isso é simplista demais. Talvez seja melhor dizer que o trabalho do autor de terror consiste em acumular sobre alguma figura, seja real ou imaginária, tudo aquilo que nos inquieta e atormenta, inclusive em nós mesmos, dando-nos, assim, um objeto conveniente ao qual direcionar nosso ódio, temor, ou nossa simples perplexidade. E, como o leitor mais perspicaz já deve estar pensando, isso pode ser usado de muitas maneiras. Pode nos proporcionar uma saudável catarse, permitindo que exorcizemos nossos impulsos violentos transferindo-os para um lobisomem fictício, ou pode ser usado com objetivos de controle social e político, com resultados catastróficos – vide o que aconteceu quando os nazistas conseguiram convencer o povo alemão de que eram os judeus o "monstro" que ele devia temer.

(Falar em lobisomem me fez lembrar de O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, que King considera uma variação moderna do velho mito, e que mereceu uma análise detida e comentários elogiosos. Para o autor, o livro de Stevenson forma, com Drácula, de Bram Stoker, e Frankenstein, de Mary W. Shelley, a tríade das grandes obras da ficção gótica, sendo ainda, segundo ele, a mais bem escrita das três, por conta de sua narração fluente e concisa, o que não é uma característica das outras duas.)

Em diferentes momentos ao longo do livro, King deixa-se arrastar (de forma deliberada, não tenho dúvida) para reminiscências autobiográficas. Na época, embora já se tivesse firmado como um escritor de sucesso, ele não tinha como saber que viria um dia a ser considerado um nome-chave na história da literatura fantástica, de modo que, ao partilhar essas reminiscências, ainda não sabia da importância que elas viriam a ter, e, então, apresenta-as somente como uma espécie de testemunho pessoal – valioso, de qualquer forma. Embora o gosto pela fantasia, e, em particular, pelo seu lado mais sinistro, pareça ter feito parte dele desde sempre, o autor arrisca apontar alguns acontecimentos de sua infância que podem ter tido sua parcela de culpa. Muito para minha surpresa, fiquei sabendo que o pai de King (que abandonou a família quando o pequeno Stephen tinha dois anos de idade e nunca mais foi visto pelos filhos), marinheiro de profissão, era um fã de ficção científica e terror, gêneros que lia avidamente e nos quais chegou a tentar a sorte como escritor, embora nunca tenha conseguido publicar nada. King, que não lembra de nada sobre o pai, acredita que seu definitivo "despertar" para o terror aconteceu quando, aos dez ou onze anos, encontrou, num sótão empoeirado, um caixote contendo alguns livros que haviam pertencido a ele, com destaque para uma coletânea dos contos de H. P. Lovecraft. Anos antes disso, porém, outra "epifania" já havia acontecido, numa ocasião em que um namorado de sua mãe levou toda a família para ver O Monstro da Lagoa Negra, filme que, hoje em dia, dificilmente ainda conseguiria meter medo em alguém (os sereianos de Harry Potter são, de longe, bem mais assustadores que o tal monstro, e isso para ficar só nas criaturas aquáticas), mas que deixou uma impressão profunda na imaginação de um garoto de sete anos naqueles meados da década de 50. E antes, ainda, outro evento pode ter deixado sua marca: aos quatro anos, King talvez tenha sido testemunha ocular da morte de um vizinho da mesma idade com quem costumava brincar, e que foi atropelado por um trem (digo "talvez” porque ele afirma não se lembrar de nada, sabendo do caso somente pelo relato da mãe, que não estava presente no momento do acidente; pode ser que, afinal de contas, ele não estivesse na companhia do amigo quando o fato aconteceu, mas também é possível que sua mente tenha simplesmente bloqueado essa memória, como dizem que acontece em casos de grandes traumas). King considera rematada tolice atribuir toda uma carreira literária a um trauma de infância, como alguns tentaram fazer desde que ele contou esse caso numa palestra, mas o episódio parece ter dado origem a uma história em particular: levante a mão aí quem lembrou do belíssimo filme Conta Comigo (Stand by Me), baseado em seu conto The Body, que, no Brasil, pode ser lido na coletânea Quatro Estações.

Outra obra que sem dúvida teve o seu peso na formação de King foi Além da Imaginação (The Twilight Zone), série criada por Rod Serling e exibida pela rede de TV americana CBS de 1959 a 1964. King dedica um bom espaço a essa série, e, mesmo que o tom no qual se refere a ela nem sempre possa ser considerado reverente (ele não hesita em apontar o que considera ruim), nota-se que, de modo geral, lembra dela com carinho. Além da Imaginação tinha formato de antologia, apresentando em cada episódio uma história fechada, independente das demais, com a temática variando entre terror, fantasia e ficção científica. No começo, quase todos os roteiros levavam a assinatura de Serling, às vezes adaptando contos de autores consagrados da literatura de imaginação, como Manly Wade Wellman, Richard Matheson e Ray Bradbury, entre outros menos famosos. Ainda durante a primeira temporada, o próprio Matheson, fisgado pelo projeto, passou a colaborar, de forma mais ou menos regular, com roteiros originais. Cancelada ao final de sua quinta temporada, Além da Imaginação seria, mais tarde, retomada por duas vezes. A primeira foi na década de 80, poucos anos depois da publicação de Dança Macabra; ainda lembro de muitos episódios dessa versão, à qual assistia na adolescência. Stephen King em pessoa escreveu ao menos um episódio, Gramma ('Vovó'), estrelado pelo garoto Barret Oliver, de A História Sem Fim, e os nomes de um punhado de outros escritores de peso também podem ser encontrados nos créditos: Harlan Ellison, Theodore Sturgeon, Ray Bradbury e George R. R. Martin. O segundo revival teve 44 episódios, exibidos entre 2002 e 2003, e é considerado pelos fãs a menos inspirada das três encarnações da série. Existe, ainda, um longa-metragem de 1983, intitulado Twilight Zone: the Movie, lançado no Brasil como No Limite da Realidade. O filme traz quatro histórias independentes, cada uma com cerca de 30 minutos de duração; três são remakes de episódios da série original, e uma é inédita. A produção é de Steven Spielberg, que também dirigiu um dos segmentos. Vários atores que participaram da série reaparecem. Note-se, de passagem, que esse formato de filme (longa-metragem composto de várias histórias mais curtas, quase sempre de terror) andou bastante em voga durante os anos 80 – posso lembrar de pelo menos mais dois exemplos: Nightmares ('Pesadelos Diabólicos'), de 1987, e Tales from the Darkside ('Contos da Escuridão'), de 1990. E deve haver outros. Puxa, que nostalgia bateu agora…

Dança Macabra, vamos admitir, parece ter uma organização um tanto caótica ("organização caótica"… Isso não é uma contradição?), fato para o qual o autor, de forma absolutamente honesta, já nos havia advertido em sua introdução; parece uma mistura de caderno pessoal de anotações, trechos de roteiros de palestras, e até mesmo apontamentos de tópicos levantados em conversas com amigos que também estavam envolvidos, de uma forma ou de outra, com a ficção de terror. Há, é claro, capítulos dedicados à ficção impressa, ao cinema, à TV e até ao rádio, mas o autor parece ter achado impossível se restringir, em cada um deles, àquele que deveria ser seu assunto específico: fazer isso implicaria em perder inúmeras oportunidades de traçar paralelos e construir ligações interessantes. E, para falar a verdade, essa ligeira balbúrdia acaba por ter um efeito positivo: dá ao produto final um ar mais informal e simpático, evitando o ranço de academicismo que poderia facilmente se formar num trabalho desse tipo.

A prosa ágil e por vezes irônica de King é tão agradável de acompanhar neste ensaio quanto em qualquer de seus trabalhos de ficção, mas não dá para fechar os olhos aos defeitos, e o maior deles, ou, ao menos, eu senti assim, é algo que talvez só seja um defeito para leitores estrangeiros como nós: o tom excessivamente norte-americano do texto, em geral concretizado nas constantes menções a coisas e principalmente pessoas que não temos ideia de quem sejam. Não me refiro a escritores ou cineastas, pois, embora muitos dos autores e obras dos quais o autor fala sejam mesmo desconhecidos para nós, eles são pertinentes ao assunto, e acabam se tornando parte do nosso acervo de referências, mesmo que não os tenhamos lido ou assistido e, por consequência, só os conheçamos por meio do que King diz; o que por vezes incomoda são as pencas e mais pencas de nomes de esportistas, políticos, cantores, apresentadores, celebridades locais e outros tipos que só um norte-americano, e digo mais, em muitos casos só um norte-americano daqueles dias, poderia saber quem eram. (Calma! Eu sei quem foram Eddie Cochran e John F. Kennedy, mas há nomes muito mais obscuros que esses, que não consigo me sentir culpado por não conhecer.) Além disso, noto em King uma dificuldade que eu também tenho: é duro resistir à tentação de incluir uma informação interessante ou um comentário mordaz quando eles nos vêm à cabeça no meio de uma frase, mesmo sabendo que, por amor à concisão e à clareza, deveríamos fazer o sacrifício. Isso resulta em longas interpolações que, não raro, fazem com que o leitor perca completamente o fio da meada e precise voltar atrás, reler a parte da frase que estava antes dessa intromissão, e pular para o que está depois, para conseguir juntar os sentidos. Esse cacoete, por sua própria natureza, aparece com muito mais frequência num ensaio que num texto de ficção; felizmente, a estrutura do ensaio permite o uso de notas de rodapé (às quais King, por sinal, recorre a toda hora), o que minimiza o problema. É preciso lembrar, também, que Dança Macabra foi escrito quando King tinha apenas 33 anos – e, como escritor não é jogador de futebol, essa era uma idade bastante jovem. Mais tarde, ao longo do tempo, ele iria lixando essa aresta.

Dança Macabra é interessante por ao menos duas boas razões: além de nos levar a uma compreensão mais profunda do fenômeno do terror na cultura popular do século XX, também traz informações sobre o próprio King que todos os fãs do escritor certamente vão apreciar conhecer – tanto informações sobre seu background por meio das partes autobiográficas, quanto sobre seu modus operandi e o porquê de algumas características que são indissociáveis de sua obra. Pena que a qualidade da edição nacional deixe tanto a desejar: há muitos erros de concordância, e inúmeros nomes próprios estão grafados errado (o escritor de ficção científica Poul Anderson virou "Paul Andersen", e Robert W. Chambers, o autor de O Rei de Amarelo, virou "Chalmers", entre muitos outros exemplos); além de tudo, até mesmo a fonte usada não é das que tornam a leitura mais confortável, sinto dizer. Na época desta edição (2003), as obras de King eram publicadas no Brasil pela Objetiva; não sei qual é a relação entre essa editora/selo e a Suma de Letras, que as publica atualmente, mas, por ocasião da transição, vários dos livros continuaram a ser impressos com as mesmas capas e o mesmo visual, mudando apenas o selo na lombada e no canto inferior direito de cada capa. Em todo caso, tenho a impressão de que as edições mais recentes são mais bem cuidadas. Espero não me decepcionar! Bons pesadelos a todos.

quarta-feira, fevereiro 03, 2016

A Máquina de Matar

Cerca de um ano depois de ter conseguido eliminar Attel Malagate, o primeiro de sua lista negra, Kirth Gersen atravessa um período de marasmo. Suas investigações em busca dos outros Príncipes-Demônios parecem ter chegado a um beco sem saída. Nessa situação, ele aceita um convite para uma reunião com um oficial da CCPI (Companhia de Coordenação Policial Intermundos), organização para a qual já trabalhou como freelancer no passado. O oficial tem em alta conta as habilidades de Gersen, e por isso deseja enviá-lo para um planeta periférico, no qual ele tem motivos para acreditar que certo indivíduo procurado pela CCPI esteja tratando de seus próprios negócios. A tarefa de Gersen seria a de localizar o homem e trazê-lo de volta, vivo se possível. Morto também serve. Entretanto, seu mandante em potencial se recusa a fornecer qualquer informação além das estritamente necessárias ao desempenho da missão: não diz por que o sujeito está sendo procurado e nem sequer sua verdadeira identidade, designando-o apenas por "Sr. Hoskins" – obviamente um nome fictício. Gersen, que não gosta de trabalhar no escuro, está pronto para recusar a incumbência quando o outro, quase por acaso, menciona que Kokor Hekkus, vulgo "a Máquina de Matar", um dos tristemente famosos Príncipes-Demônios, pode estar envolvido nos assuntos dos quais o procurado anda tratando. Isso muda totalmente as coisas para Gersen, que, embora mantendo a aparência de desinteresse para não dar na vista, toma no mesmo instante a decisão de aceitar a missão.

No planeta designado, Gersen testemunha o encontro de "Hoskins" com um tal Billy Windle, que ele suspeita ser um agente a serviço de Kokor Hekkus. O encontro acaba mal para "Hoskins", que perde a vida; ele estava em vias de trocar certos papéis com Windle, mas a intervenção de Gersen impede que a transação se concretize e, quando tudo termina, nosso herói se vê de posse de dois documentos. Um deles, rasgado durante a luta, está incompleto, e traz certas instruções envolvendo matemática, para algum propósito misterioso. O outro, para seu assombro, consiste em nada menos que instruções sobre como se tornar um hormagaunt – uma espécie de bicho-papão desses tempos futuristas, uma classe de homens que, segundo se diz, conseguem prolongar indefinidamente a própria vida utilizando ingredientes misteriosos obtidos dos corpos de jovens ou crianças. Como toda pessoa racional, Gersen sempre viu isso como mera fábula, mas é forçado a reconsiderar ao ver-se diante das tais instruções por escrito, que "Hoskins", sem dúvida, considerava sérias. Dizendo de outra forma: a coisa em si talvez não seja real, mas Gersen sabe agora que há pessoas que acreditam que seja – o que, para muitas finalidades, dá no mesmo. Em adição a tudo isso, um garoto que ele encontra naquele planeta afirma categoricamente que Billy Windle é mesmo um homem de Kokor Hekkus, que Hekkus é um hormagaunt, e que vive no planeta Thamber. Não que isso, em princípio, torne a coisa mais crível: Thamber é o planeta das lendas e dos contos de fadas. Aqui na Terra, quando os contos de fadas surgiram, supunha-se que as maravilhas e os horrores neles descritos acontecessem em "reinos distantes", pois, naquela época, nosso mundo ainda possuía suficientes partes inexploradas para permitir o benefício da dúvida quanto à existência de lugares assim; já nos tempos pós-exploração espacial em que se desenrola a Saga dos Príncipes-Demônios, as bruxas, os dragões e as princesas encantadas "migraram" para esse planeta misterioso, de localização desconhecida e existência duvidosa. Portanto, no que diz respeito a Gersen, o assunto fica sobrestado até que novos elementos surjam; ele já viu coisas demais para fechar a mente a qualquer possibilidade, mesmo as mais fantásticas.

Gersen tem seus motivos para trabalhar ocasionalmente para a CCPI, e o pagamento oferecido por cada missão não é o principal deles; para ele, ter contatos dentro da organização é muito mais valioso, pois lhe garante acesso a informações que não estariam disponíveis a pessoas comuns, e que, para ele, podem ser de importância capital. Pouco mais de um mês depois do incidente com o "Sr. Hoskins", o Oikumene (termo que Jack Vance foi buscar no grego clássico, e que significa algo como “o universo habitado”) começa a ser assolado por uma onda de sequestros. Não que sequestros sejam tão incomuns, mas esses são todos realizados de forma muito parecida, e não visam simplesmente pessoas ricas – só as extremamente ricas, ou seus entes queridos. O resgate solicitado também é o mesmo para todos: cem milhões de UPVs (a UPV, Unidade Padrão de Valor, é a moeda corrente nos mundos humanos). Tudo parece indicar que todos os sequestros tenham sido arquitetados por um mesmo mentor, e, graças ao acesso privilegiado a informações de que falávamos há pouco, Gersen descobre que esse mentor é Kokor Hekkus. Naturalmente, a questão que se impõe é: para que teria ele necessidade de tanto dinheiro, e com tamanha urgência que não pode dispor do tempo de obtê-lo por meio das suas atividades criminosas habituais, que chamam muito menos atenção?

Este é o momento em que precisamos conhecer outra particularidade desconcertante do universo exótico de Jack Vance. Como sabe quem já leu algum dos cinco volumes da Saga dos Príncipes-Demônios, o Oikumene, apesar do nome, não é todo o universo conhecido – somente a parte dele que pode ser considerada relativamente civilizada e segura. Suas "metrópoles", por assim dizer, são o sistema do Sol (o nosso, onde fica a Terra, berço da humanidade) e os de Vega e Rigel. Nesses sistemas, e nos outros que estão sob sua influência direta, existem leis, e também os órgãos dedicados a garantir que elas sejam cumpridas, o que oferece aos cidadãos um certo grau de proteção, embora, é claro, seja impossível impedir totalmente a ação de criminosos. O Oikumene é uma região vasta, mas nem de longe tão grande quanto o "resto", quer dizer, aqueles sistemas estelares que até podem já ter sido explorados e mapeados, mas que a força da lei não alcança e onde, literalmente, vale tudo – uma espécie de Velho Oeste cósmico. Esse é o assim chamado Além-Espaço, ou, às vezes, apenas o Além. Nem é preciso dizer que nele não é difícil encontrar contrabandistas, piratas, mercadores de escravos e todo tipo de bandidos comuns e incomuns, mas não só isso. Também é no Além que certas empresas são fundadas e prosperam, e não se trata somente de facções criminosas brutais e pouco organizadas: há companhias habilmente administradas por empreendedores esclarecidos, com funcionários, estatutos, hierarquia, burocracia e tudo o mais. O motivo pelo qual os fundadores dessas empresas escolheram estabelecê-las no Além-Espaço é um só: os negócios aos quais elas se dedicam são ilegais.

Uma dessas empresas é Intercâmbio, cujo ramo de atuação consiste em intermediar sequestros. A companhia possui um complexo instalado num pequeno planeta na borda do Além-Espaço, e é para lá que sequestradores de todos os lugares levam suas vítimas, eliminando a necessidade dos trabalhosos, arriscados e pouco práticos cativeiros. Mediante uma comissão sobre o valor do resgate, Intercâmbio se encarrega da custódia dos reféns e cuida de seu conforto, saúde e segurança, além de receber o pagamento e repassá-lo ao sequestrador (que, no jargão da companhia, é chamado de "patrocinador").

Intercâmbio existe há muito tempo, goza de prestígio e pode mobilizar recursos cuja extensão ninguém conhece ao certo; nem mesmo Kokor Hekkus ousaria tentar trapaceá-lo – guardem essa informação. No atual momento, aliás, Hekkus é o principal cliente da companhia: quase todos os dias uma de suas naves chega trazendo novos reféns. Gersen decide ir até lá ver o que descobre, e, para tanto, faz um acordo com um dos figurões cujos filhos foram sequestrados; é na qualidade de agente desse homem que ele chega a Intercâmbio, onde, graças à tagarelice de um empregado (encorajada por um pouco de dinheiro), fica sabendo, por fim, o que há por trás daquilo tudo. E o que descobre o surpreende, embora, pensando bem, bata com aquilo que se sabe sobre Kokor Hekkus. O Príncipe-Demônio tem duas paixões: uma são máquinas complicadas, e a outra é a beleza. Adora antiguidades e obras de arte, que compra ou rouba por todo o Oikumene e no Além-Espaço. Aconteceu então que, levado por essa obsessão estética, ele se encantou por certa jovem cuja beleza (dizem) desafia descrições, e que (também dizem) é originária do mítico Thamber. Horrorizada ante a perspectiva de cair nas mãos de Hekkus, e sabendo que ele moveria céus e terras para apanhá-la, a moça recorreu a Intercâmbio, cujas regras, como dissemos, nem mesmo ele se atreveria a tentar burlar. Agindo como sua própria patrocinadora, ela se pôs sob a guarda de Intercâmbio, fixando o próprio resgate em inacreditáveis dez bilhões de UPVs – soma superior ao orçamento anual da maioria dos planetas do Oikumene –, e só não o fixou ainda mais alto porque as normas da empresa não permitiam. Outra dessas normas estipula que, até o final de um certo prazo, só a parte diretamente interessada, isto é, a família do refém, pode pagar o resgate; passando daí, qualquer pessoa que o pague pode "tomar posse". No caso da jovem de Thamber, o prazo já expirou, de modo que Kokor Hekkus poderá finalmente tê-la… Desde que pague os dez bilhões de UPVs, que, como o funcionário de Intercâmbio observa a Gersen, são uma soma imensa, mas também são apenas cem vezes cem milhões. De posse de todas essas informações, Gersen encara o desafio de descobrir nelas alguma fresta que lhe dê a chance de localizar Kokor Hekkus, acercar-se dele e matá-lo. Um outro refém em Intercâmbio talvez possa ser útil: Myron Patch, engenheiro e industrial da cidade de Patris, no planeta Krokinole, está ali porque aceitou uma encomenda de Hekkus, que o encarregou de construir para ele uma espécie de fortaleza ambulante sobre pernas articuladas, um gigantesco centípede de metal para disseminar o terror entre certas tribos bárbaras de Thamber, que andavam a lhe causar problemas. Patch entrou em desacordo com Hekkus por motivos financeiros, e foi assim que acabou sequestrado. Gersen irá apostar que esse sujeito pode ajudá-lo a estabelecer um contato com seu alvo – e nessa aposta vai arriscar muita coisa, inclusive a vida, o que faz parte de seu destino de vingador.

Deixem-me dizer, os livros de ficção científica que já li devem contar-se pelas centenas, mas, se eu for fazer uma lista dos autores que me empolgaram tanto quanto Jack Vance, ela terá uns três nomes, no máximo quatro. Seu universo é de uma complexidade quase inacreditável, mas, apesar disso, conforme vamos imergindo nele, nos dá a sensação de uma familiaridade como só lugares reais costumam conseguir fazer. Só tenho pena de que a Saga dos Príncipes-Demônios só tenha cinco volumes, pois esse universo mereceria ser muito mais explorado, aproveitado em muito mais histórias. Como observei ao escrever sobre Star King, o autor foi afinando seus instrumentos conforme progredia nas aventuras de Kirth Gersen: o primeiro livro já era ótimo, mas tinha algumas arestas que precisavam ser aparadas, o que positivamente aconteceu em A Máquina de Matar. A narrativa ficou mais fluente, as "cores" ainda mais vivas, e a personalidade do protagonista ganhou mais profundidade. Gersen, ele próprio, também é uma "máquina de matar", quase perfeito como guerreiro, espião, detetive e assassino, treinado durante toda a vida para sua missão de vingança e educado para agir de forma estritamente racional – mas nada disso consegue apagar o fato de que ele, no fundo, é um romântico incorrigível, um fato que esta segunda história irá pôr em evidência mais do que a primeira.

A capacidade de Jack Vance de urdir tramas complexas sem deixar nenhuma ponta solta é algo de admirável. Desde as primeiras páginas, ele vai jogando pedaços de informação cuja importância só iremos compreender muito depois, num desafio de lógica investigativa que tanto Gersen quanto o leitor precisam desvendar, lembrando um pouco um romance policial, mas, é claro, em clima de ficção científica, e, neste livro, também de fantasia: é uma experiência emocionante chegar a Thamber e descobrir que ele é real. Colonizado por humanos em tempos antigos, o planeta ficou por muito tempo isolado, o que levou a civilização, nele, a regredir até um estágio técnico e social que lembra a Baixa Idade Média da Terra. Vance (que faleceu em 2013, aos 96 anos de idade) parecia gostar desse conceito, pois o utilizou em pelo menos mais duas histórias: The Miracle Workers ('Os Milagreiros') e The Dragon Masters (publicado no Brasil como 'O Planeta dos Dragões'). A ideia, que poderia facilmente soar ridícula em mãos menos hábeis, dá resultados formidáveis quando quem a usa é um mestre como Vance. É inexplicável que um autor desse calibre, cultuado mundo afora e reverenciado por gente como Ernest Cline, Neil Gaiman, George R. R. Martin, entre outros, tenha tido tão poucos livros publicados no Brasil, e que mesmo esses já não sejam reimpressos há uns 30 anos ou mais, só podendo ser encontrados em sebos, e com muita sorte.

Por falar em sebos e em sorte, quero finalizar com uma curiosidade. Possuo ambas as versões de The Killing Machine existentes em português: a da editora brasileira Francisco Alves, de 1980 (dentro da coleção Mundos da Ficção Científica), intitulada A Máquina de Matar, e a da portuguesa Europa-América, sem data de publicação, chamada A Máquina Assassina. Comprei a edição portuguesa primeiro, acho que foi na Feira do Livro de Porto Alegre, nos idos dos anos 90, mas, ao encontrar a brasileira mais recentemente, e por um preço mínimo, comprei também, principalmente pela curiosidade de comparar as duas traduções – mas, até agora, só havia lido de cabo a rabo a versão portuguesa. Quando resolvi reler, ficava pulando de uma edição para a outra, não raro me surpreendendo do quanto uma tradução pode mudar um texto, e desejando ter também uma edição em inglês, para ver como certos trechos eram no original. Acabei constatando mais uma vez algo que já sabia sobre mim mesmo: não sou uma pessoa "desprendida" (sou do tipo que, quando vai a um restaurante de que gosta, tem a tendência de pedir sempre o mesmo prato; perguntem a Cintia). Voltei para a edição portuguesa, concluindo que gostava mais dela, embora isso possa ser apenas porque já a conhecia!… Além disso, por razões que ignoro, na tradução brasileira Kokor Hekkus é frequentemente chamado apenas de "Kokor", e não acho recomendável demonstrar tanta intimidade com um notório malfeitor. Em todo caso, ao escrever este texto, procurei usar as palavras da terminologia do universo de Jack Vance do modo como aparecem na edição brasileira (exemplo: UPV em vez de SVU – a edição portuguesa usa a sigla em inglês, de Standard Value Unit), já que aqueles de vocês que quiserem ler o livro e tiverem sorte o bastante para consegui-lo, provavelmente encontrarão a edição da Francisco Alves. Por outro lado, optei por ilustrar o post com a capa da edição portuguesa, que é, de longe, muito mais bonita… Aliás, para falar francamente, a capa da nacional é muito feia. Mas, seja qual for a edição, não deixem de ler se puderem.