sábado, maio 05, 2012

Sombras da Noite

Devido a certos fatos misteriosos (não no sentido interessante da palavra misterioso) e nunca esclarecidos que ocorreram na casa dos meus pais, onde ainda permanece a maior parte da minha coleção de livros, acabei ficando sem vários itens que prezava muito, alguns deles aquisições recentes que nem haviam sido lidas ainda, outros eu possuía há muito tempo e os considerava de estimação. Os do primeiro grupo podem ser repostos com facilidade, embora ninguém em seu juízo perfeito fique contente de pagar duas vezes para ter um mesmo item; os do segundo seriam muito mais complicados, se hoje não existisse a Estante Virtual (como já escrevi antes, apesar dos pesares - que são muitos -, eu adoro viver no século XXI!). Assim foi que, depois de tomar certas providências para evitar um novo "êxodo" de livros, a próxima coisa que fiz foram algumas compras via computador. E, quando chegou o meu "novo velho" exemplar de Sombras da Noite, encomendado a um sebo de Belo Horizonte, foi impossível resistir a uma releitura. Esse é um dos inúmeros livros que só não ganharam comentários antes porque foram lidos antes que eu criasse o blog.

Publicado originalmente em 1978 e lançado no Brasil pela Francisco Alves, como parte da saudosa coleção Mestres do Horror e da Fantasia, em 1987, Sombras da Noite reúne vinte contos (embora o texto da orelha fale em 19) da primeira fase da carreira de Stephen King, quando o escritor ainda não tinha o status de monstro sagrado que possui hoje, sendo, ao invés, considerado um "jovem promissor". Essas histórias haviam aparecido em diversas revistas entre 1970 e 1977, estando entre as que asseguraram a King sua profissionalização como escritor e o início de um renome que, na época, poucos teriam ousado prever. O formidável talento do sujeito para lidar com o macabro e o sobrenatural de modo a fazê-los parecer críveis aparece com tanto vigor nestes contos quanto em romances como Christine, Zona Morta, O Cemitério ou 'Salem's Lot (este último foi publicado no Brasil com o ingênuo título A Hora do Vampiro; o nome 'Salem's Lot é uma contração de Jerusalem's Lot, nome da pequena cidade do Maine onde a ação se desenrola).

Jerusalem's Lot, aliás, é também o título do primeiro e, para mim, melhor conto da coletânea. Ambientado em 1850 e narrado sob a forma de cartas e trechos de diário (uma coisa meio Drácula, embora com pretensões mais modestas), é a história de Charles Boone, um sujeito sobre o qual não sabemos muito, exceto que descende de uma família que se alçou à nova burguesia norte-americana com o comércio de peles no século XVIII, e parece tratar-se de um escritor com preocupações humanistas, engajado na luta pela abolição da escravatura nos Estados Unidos. Boone vai viver em Chapelwaite, uma mansão à beira-mar construída décadas antes por seu avô, e ocupada por último por seu primo, Stephen, que, ao morrer (sob circunstâncias misteriosas), legou-a a ele, que vem a ser o último Boone vivo. Charles, um típico pensador esclarecido pós-Revolução Francesa, não acredita em fantasmas nem em nada que cheire a sobrenatural, mas o fato de não acreditar não o protege contra os ruídos sinistros que ecoam nos vãos das paredes de seu novo lar, nem contra o horror supersticioso com que os habitantes da cidadezinha próxima encaram tanto a casa quanto, agora, a ele, seu novo ocupante. O lugar está envolto num mistério tenebroso, cuja explicação (que Charles preferirá não ter descoberto) encontra-se num vilarejo abandonado a poucos quilômetros de Chapelwaite, chamado Jerusalem's Lot... Paro por aqui: leiam o conto e bons pesadelos! Observo apenas que, de todas as histórias de Stephen King que já li, essa é a de clima mais acentuadamente lovecraftiano - possivelmente uma homenagem a um dos escritores que mais o influenciaram. Também desperta a curiosidade imaginar se a Jerusalem's Lot do conto é a mesma do romance de King sobre vampiros, pois, embora o nome seja o mesmo, cada uma parece ter seus próprios horrores diferentes. A cidade é citada ainda em outro conto que também está em Sombras da Noite, chamado A Saideira.


Os pontos altos não param por aí: vários elementos que se tornariam marcas registradas de King e permanentemente presentes no imaginário de seus leitores aparecem pela primeira vez nestes contos. A combinação vida moderna comum/terror surge em sua expressão mais terrível em histórias como A Máquina de Passar Roupa, Caminhões e O Homem do Cortador de Grama, onde máquinas e objetos corriqueiros se transformam em coisas com vontade própria e sedentas de sangue; as crianças tomadas por uma forma de fanatismo religioso que combina traços distorcidos de cristianismo e paganismo, que fundaram uma comunidade à parte numa região rural de Nebraska, e que dão título ao conto As Crianças do Milharal, inspiraram toda uma série de filmes, conhecidos no Brasil com o título Colheita Maldita. Há ainda momentos surreais como em Campo de Batalha, no qual um assassino de aluguel enfrenta a vingança da mãe de uma de suas vítimas de uma maneira que jamais poderia prever, e pequenas pérolas de horror clássico, lidando com temas como mortos que retornam, criaturas escondidas no armário, ou vampiros - respectivamente Às Vezes Eles Voltam (belo título!), O Fantasma, e a já citada A Saideira. Sei do que Você Precisa combina de forma magistral psicologia, cotidiano universitário, paixões de infância e magia negra - com uma discreta homenagem a H. P. Lovecraft ao citar, de passagem, o famigerado Necronomicon. Já em Primavera Vermelha e O Homem que Adorava Flores, o horror surge das profundezas da mente humana, sem uma resposta definitiva para as indagações de como ou por que a violência homicida aflora em determinados momentos e situações, de forma totalmente inesperada. Ambos têm finais chocantes e surpreendentes, e o segundo potencializa o efeito ao começar de uma maneira lírica, poética, descrevendo uma tarde agradável onde tudo parece estar tão bem no mundo que as pessoas chegam até a ser cordiais umas com as outras - até o incauto leitor descobrir certos fatos. Um conto literariamente magnífico naquilo a que se propõe.

Até aqui, tudo são coisas que naturalmente esperaríamos de Stephen King, um nome que é quase um sinônimo de narrativas de horror bem arquitetadas e de leitura viciante. Porém, há ainda algumas surpresas, sob a forma de histórias que não apresentam nenhum elemento sobrenatural em sua composição. O Ressalto é uma narrativa de puro suspense sobre um homem que tenta contornar um arranha-céu altíssimo andando num ressalto de doze centímetros e meio de largura, para ganhar uma aposta que é literalmente de vida ou morte, enquanto O Último Degrau da Escada é um drama sobre o sentimento de culpa. Por fim, como nem mesmo um livro de Stephen King é perfeito, este termina com A Mulher no Quarto, que não é nem assustador, nem eletrizante, nem dramático, nem mesmo comovente - a meu ver, é apenas triste, e não de um modo melancólico, que pode até ser bonito, mas simplesmente de modo deprimente. É a única história do livro da qual devo dizer que não gostei, e o fato de estar no final torna-a ainda mais prejudicial ao efeito do conjunto.

Não mencionei todos os contos do livro, mas todos os que não cheguei a citar são excelentes, e, graças à variação de temas, exploram um amplo espectro dentro do universo da narrativa de horror. Como se não bastasse, há ainda um interessantíssimo prefácio no qual King disserta sobre as origens tanto psíquicas quanto históricas da literatura de horror. Quem ler a mesma edição que tenho achará engraçado ver como o coitado do tradutor rebolou com as referências de King a algumas obras com as quais ele, tradutor, evidentemente não estava familiarizado, como O Senhor dos Anéis, que, na época, pouquíssima gente no Brasil conhecia: Middle-earth virou "Meio da Terra" em vez de Terra-média. Mas não deixem que isso os leve a pular o prefácio, que, ao contrário de muitos prefácios de diversos livros que andam por aí, recompensa perfeitamente o leitor pelo adiamento de chegar à "parte que interessa" - que, aqui, são os hipnotizantes contos de Stephen King.

2 comentários:

QUERO MEDO disse...

Caro Marcos, como vai? Espero que ótimo! Primeiramente gostaria de saber que coisas estranhas são essas que ocorrem na casa de seus pais? Teria uma história interessante aí?
Sobre a postagem esse livro é um marco no terror, ele de fato sugeriu uma divisão no gênero. Eu já o li duas vezes e após sua resenha já quero ler novamente. E olha que ler um livro três vezes só foi possível em minha vida com As aventuras do Sr Pickwick de Dickens. Ótimo texto e uma grande homenagem ao mestre. Você citou corretamente "A hora do Vâmpiro" é um dos melhores livros sobre essas criaturas que já li e o nome é bem fraco para a obra. Poderia mencionar também Insônia e Jogo Perigoso que são excelentes também. Grande abraço e até breve!

Marcos* disse...

Olá, Quero Medo! Que satisfação ter outro comentário seu por aqui. Bem, quanto ao "mistério" na casa dos meus pais, não sei se devo ficar contente com isso (ter fantasmas rondando seria pior, desconfio), mas não se trata de nada tão sinistro assim, apenas o sumiço inexplicável de vários livros de um lugar onde supostamente ninguém deveria poder mexer neles. Resolvi (espero) o problema com a adoção de um nada sobrenatural cadeado. Cara, eu realmente adoro Sombras da Noite, é um dos livros do mestre King de que mais gosto; de fato, um marco na literatura de terror e também na carreira do autor, pois foi por volta dessa época que ele se tornou profissional e passou a poder escrever em tempo integral, para alegria e arrepios nossos. Obrigado pela dica a respeito de Insônia e Jogo Perigoso, ainda não os conheço e pode estar certo de que tratarei disso assim que puder. E você, já leu Christine e O Cemitério? Grande abraço e continue comentando!