quinta-feira, maio 12, 2011

O Retrato de Dorian Gray

Traçar um paralelo entre um novo filme e uma história consagrada na literatura é sempre um exercício empolgante e, ao mesmo tempo, complicado. Por um lado, nunca tive paciência com gente que pensa que achar tudo ruim é ter "gosto refinado", e a última coisa que quero é me parecer com esse tipo. Por outro, quanto mais importante, por uma ou outra razão, for um livro, maior obrigação tem o seu leitor de ser crítico com qualquer recriação que apareça... Obrigação essa que fica ainda mais pesada se o leitor em questão for um estudioso de literatura por formação e gosto. Não obstante, tentarei assim mesmo.

Esta nova versão cinematográfica do clássico da literatura gótica de Oscar Wilde já não chega tão "nova" aos cinemas nacionais, já que a produção (inglesa) é de 2009. Ben Barnes, já celebrizado como o príncipe Caspian na série As Crônicas de Nárnia (baseada nos não menos clássicos livros de C.S. Lewis) foi escolhido para encarnar o jovem burguês londrino que vende a alma em troca da juventude perpétua - note-se, de passagem, que Barnes não se parece com a visão que Wilde tinha do personagem, que é descrito no livro como sendo loiro. Ben Chaplin faz o papel do pintor Basil Hallward, responsável pelo famigerado retrato, enquanto Colin Firth, atualmente sob os holofotes por causa do oscarizado (epa!) O Discurso do Rei, é o insuportável lorde Wotton. Na ala feminina do elenco, Rachel Hurd-Wood empresta sua beleza a Sibyl Vane, a atriz adolescente que Dorian seduz e depois abandona, causando sua morte, enquanto Rebecca Hall interpreta a "avançada" Emily, personagem inexistente no livro. Oliver Parker assina a direção.

O Retrato de Dorian Gray, publicado em 1890, foi o único romance escrito por Oscar Wilde (1854-1900), que, durante sua carreira literária, devotou a maior parte de sua energia ao conto, à poesia e ao teatro. Se não fosse pelo poderoso molho de horror sobrenatural que tempera suas páginas, é possível que este livro fosse hoje tão pouco lembrado quanto toneladas de outros romances da mesma época e cuja massa tinha a mesma composição - a crítica de costumes. Não que a crítica de costumes, em si mesma, não possa gerar boa literatura (alguém disse Machado de Assis?): o problema é que, quando o modelo é muito sem-graça, o retrato (ops!) dificilmente sairá espetacular, de modo que era preciso ser muito escritor para conseguir produzir algo interessante tendo como assunto a fútil e afetada sociedade inglesa da época. Uma sociedade que Wilde, embora irlandês de nascimento, sem dúvida conheceu a fundo.

Ainda que não haja no livro nada tão explícito quanto o beijo trocado entre Barnes e Chaplin numa cena do filme, a sabida homossexualidade do autor é perceptível, de forma sutil mas ao mesmo tempo inequívoca, na interação entre o trio central da trama: Dorian, Hallward e lorde Henry Wotton - Harry para os íntimos (entendam esse "íntimos" como quiserem). Por sinal, se já houve um personagem de ficção que eu desejei que tivesse uma cara de carne e osso para que eu pudesse parti-la, foi esse lorde Wotton. O que essa figura faz é cultivar o cinismo em sua forma mais repulsiva, aparentemente devotando cada minuto de vigília a forjar frases "chocantes" reduzindo amor, família, religião, qualquer espécie de decência, honestidade, honra e todos os demais valores morais e humanos imagináveis a convenções ridículas e ultrapassadas, que deveriam ser postas de lado como uma gravata fora de moda.

Dorian, Hallward e Wotton, estava eu dizendo, formam o núcleo da história, e as atenções que ambos os mais velhos dirigem ao jovem protagonista não disfarçam uma admiração que nada tem de inocente - na verdade, há nos diálogos um tipo de jogo erótico que só mesmo um escritor do calibre de Wilde poderia ter forjado: é quase impossível dizer exatament
e onde está o erotismo, mas não há dúvida de que ele existe, embora em nenhum ponto do livro haja a sugestão de alguma proximidade física maior entre os personagens. Uma piada velha, mas que não perde o poder de causar alguns risinhos amarelos entre o pessoal da literatura, é referir-se ao livro como O Retrato de Dorian Gay.

Já que falei no assunto, não se deve pensar que tenha sido devido a qualquer tipo de escrúpulo moral que Wilde optou por não ser mais explícito em seu romance (fato que a nova versão cinematográfica tenta "corrigir", aproveitando os tempos mais relax que vivemos hoje). Se ele não o fez, foi porque sabia que tal coisa poderia render-lhe sérios problemas. Na época, atos homossexuais eram previstos em lei como delito de "conduta imoral", e podiam ser punidos com prisão. Foi exatamente o que aconteceu ao próprio Wilde, que, tempos depois da publicação de O Retrato..., amargou uma temporada de dois anos atrás das grades, por conta de seu relacionamento com o jovem filho de um lorde influente.

De volta ao livro, o Dorian Gray do título é um típico jovem da alta sociedade britânica da segunda metade do século XIX. Ou melhor, seria típico se não fosse por uma extraordinária beleza, que o faz sobressair onde quer que esteja e atrai a atenção de Basil Hallward, um pintor de inegável talento e um dos favoritos dos aristocratas e da burguesia de Londres - não que, para fazer renome entre essa gente, o talento fosse uma condição indispensável: muitos cavalheiros e damas gostavam de fingir que entendiam de arte. Sendo Hallward um pintor renomado, e Dorian o modelo dos sonhos, o início da amizade entre os dois leva ao desfecho óbvio: o rapaz posa para um retrato. Durante a última sessão de trabalho no atelier de Hallward, Dorian fica conhecendo lorde Wotton, amigo do pintor.

De certa forma, Wotton tem de Dorian uma visão inversa à que tem Hallward. Enquanto o pintor vê no jovem uma forma sublime que ele se esforça por reproduzir em tela e tinta, o lorde o vê como uma argila virgem que, com a necessária habilidade, poderia ser moldada na forma de... algo. Primeiramente, é Wotton quem incute em Dorian o pavor de envelhecer:

"Para o senhor, Gray, tudo deveria ser importante (...), porque possui uma maravilhosa juventude, e a juventude é a única coisa que vale a pena. (...) Quando for velho, enrugado, feio, quando a meditação lhe tiver murchado a fronte com suas rugas e a paixão marcado seus lábios com horríveis estigmas, sentirá isso terrivelmente. Agora, aonde quer que vá, cativa todo mundo. Mas será sempre assim? (...) Sim, Sr. Gray, os deuses foram generosos com o senhor. Mas o que os deuses dão, tomam logo em seguida. O senhor só tem alguns poucos anos para viver verdadeiramente, perfeitamente, plenamente. (...) O tempo tem ciúme do senhor e luta contra os seus lírios e as suas rosas. O senhor empalidecerá, suas faces ficarão vincadas e seus olhos se apagarão. Sofrerá terrivelmente... Ah! Aproveite a sua juventude enquanto a possui. (...) Juventude! Juventude! Não há absolutamente nada no mundo, senão a juventude!"

E Dorian, juvenilmente impressionado por tal discurso, desabafa:

"Como é triste! Eu me tornarei velho, horrível, espantoso. Mas este retrato permanecerá sempre jovem. Não será nunca mais velho do que neste dia de junho... Se acontecesse o contrário! Se eu ficasse sempre jovem, e se este retrato envelhecesse! Por isso... por isso eu daria tudo! Sim, não há nada no mundo que eu não desse! Daria até a minha própria alma!"




Aparentemente, Satã estava ouvindo com interesse esse diálogo, e, quando o jovem declara sua disposição para tal barganha, deve ter dito simplesmente "Topo!", ou o equivalente a isso. O trato está feito, assim, de boca, sem necessidade de missa negra, pentagramas, livros profanos, mulher nua servindo de altar e essa presepada toda. Desse momento em diante, Dorian nunca mais envelhece um só dia: as marcas que, pelas leis da natureza, o tempo deveria deixar em seu rosto vão, ao invés, sendo transferidas para o retrato. E não só as marcas do tempo: cada maldade que ele pratica, cada desvio moral ao qual se entrega em busca de prazeres novos (tudo seguindo os conselhos de lorde Wotton e os seus desdobramentos inevitáveis) também provoca mudanças horripilantes na efígie, que passa a ser o segredo mais bem guardado de Dorian, trancado a sete chaves, longe dos olhos de todos. Com o tempo, como não poderia deixar de acontecer, sua aparência inalterada começa a chamar atenção, e, combinada com a fama proporcionada por suas inúmeras depravações e vícios, faz com que passe a ser encarado, pelos que o conhecem, com algo que beira o horror supersticioso. A relação entre Dorian e o retrato vai-se tornando progressivamente mais macabra e obsessiva, e seu final não poderia ser agradável - é claro que não vou contar o final, mas adianto a quem viu o filme e pretende ler o livro que o final de um tem pouco a ver com o do outro. Depois me contem qual dos dois acharam melhor - ou, dependendo do ponto de vista, pior.

Uma coisa que achei curiosa foi a contextualização histórica, que extrapola o que havia no romance - e o faz de forma plausível e inteligente. Por exemplo, há referências a uma guerra, obviamente a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Ora, Oscar Wilde, que morreu em 1900, talvez até pudesse ter previsto a iminência de um confronto na Europa num futuro próximo, levando em conta a situação política em seus dias, mas é claro que não teria como incluir datas ou detalhes, a menos que os inventasse - e futurologia não era bem a sua seara literária. Não há enunciação de ano no romance, mas é fácil perceber que a ambientação é contemporânea à da vida do autor. Ora, se a história se passasse na mesma época em que foi escrita, Dorian Gray, que tem 20 anos no início do romance, teria nascido por volta de 1870, e, como estaria com 40 e poucos no desfecho da narrativa, isso coincidiria exatamente com os dias da guerra. Automóveis e telefones, coisas quase desconhecidas durante a vida de Wilde, mas que já começavam a se tornar corriqueiras na segunda década do século XX, também aparecem.

Num apanhado geral, considerei o filme bastante satisfatório e, até certa altura da história, muito fiel à narrativa original, com detalhes variando, mas a essência do enredo sendo mantida. No último terço, aproximadamente, é que o roteiro degringola, com lorde Wotton decidindo assumir o papel de investigador implacável para descobrir o segredo de Dorian - o Wotton da história original jamais teria energia para realizar tal empreendimento, nem caráter para considerá-lo necessário - e a relação artificial de Dorian com Emily, filha de Wotton (personagem que, como disse acima, foi inventada para o filme) sendo usada como pivô para o desejo de regeneração e redenção experimentado pelo protagonista. Desejo esse, por sinal, que o filme exagera muito. As atuações, em sua maioria, são acima da média, e a recriação da Londres do século XIX é perfeita: uma cidade cinzenta, suja, poluída, com sua magnífica arquitetura manchada pela onipresente fuligem de milhares de chaminés - enfim, uma cidade que pagava o preço da Revolução Industrial que fizera da Inglaterra o país mais rico do mundo -, e onde cenários de riqueza e ostentação e outros da mais sórdida miséria coexistiam separados por poucos passos de distância. Os espectadores que vierem a ler o livro levarão, no mínimo, uma boa amostra do clima que devem imaginar ao imergirem em suas páginas para algumas horas de leitura fascinante.

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