quinta-feira, outubro 12, 2006

O "meu" 1984

Para quem mora na Grande Porto Alegre e mantém contato regular com o ambiente cultural/acadêmico, não há necessidade de apresentar o autor do texto acima; para os demais, aqui vai: Luís Augusto Fischer é professor da UFRGS, autor de diversos livros, e certamente uma das melhores cabeças da região para tudo quanto se refira a língua e literatura. Perdi por pouco a oportunidade de ser seu aluno, quando, em 2004, tendo sido aprovado no vestibular, estava iniciando meu segundo curso de graduação em Letras (bacharelado em tradução), mas fui obrigado a abandoná-lo depois de poucos dias de aulas para pegar o emprego burocrático onde ainda permaneço.

No artigo que acabamos de ler, Fischer nos brinda com uma análise magistral de um livro que sempre mereceu um olhar atento - e, em nossos dias, mais do que nunca. Quando li 1984, o ano que lhe dá o título já tinha passado havia cinco anos, mas, embora eu tivesse, na época, apenas 15, percebi logo que isso não significava, de forma alguma, que o risco de os horrores nele descritos se tornarem realidade tivesse sido afastado.

Aos 15 anos, eu andava mais interessado que nunca em estudos de natureza social e política, e foi isso, em grande parte, o que me levou a procurar esse livro. Mais tarde (lamento dizer), esse interesse diminuiu, creio que pelo fato de tudo à minha volta apontar para a impossibilidade de qualquer mudança real. De qualquer forma, 1984 me abriu os olhos para numerosas questões que ainda me perturbam - como sei que também perturbam a muitos outros.

O fato é que George Orwell, apesar de todo o clima de paranóia (justificada) que permeia seu romance, ficaria de cabelo em pé se pudesse, como Nostradamus, efetivamente ver o futuro e tomar conhecimento de como as coisas são nos dias de hoje. A teletela que ele descreve é aquilo que as pessoas simples do tempo do autor imaginavam que fosse a televisão (na época, uma invenção recente, e que ainda inspirava desconfiança): "eles" nos mostram as imagens que querem que vejamos, mas, ao mesmo tempo, "eles" também nos observam - o tempo todo. Entretanto, assustadora como possa parecer, essa idéia pouco representa se comparada a certas coisas que não são ficção... Hoje em dia, informações a nosso respeito são coletadas a cada passo que damos, e é impossível saber para o que estão sendo usadas. Alguns meses atrás, a revista Superinteressante publicou uma matéria sobre o assunto, que (admito) me preocupou. Imagine: você solicita um cartão numa dessas hipermegalojas de hoje - essas onde se pode comprar de tudo, de rabanetes a aviões. Graças ao cartão, obtém descontos, condições facilitadas de pagamento, e muitas vezes nem precisa mais carregar dinheiro nos bolsos - mas, em contrapartida a essas vantagens, o banco de dados da loja registra tudo o que você compra. Essas informações podem ser vendidas a outras empresas - por exemplo, uma companhia de planos de saúde, que, analisando as suas listas de compras, passa a conhecer seus hábitos alimentares, e, por conseguinte, a ter uma estimativa das chances que você tem de vir a precisar de serviços médicos. Com base nisso, a companhia calcula o preço que você terá que pagar por um plano de saúde!...

Isso é apenas um exemplo das coisas que ocorrem num mundo onde a privacidade, outrora um direito básico de todo cidadão, passou a ser um luxo nem sempre disponível. Também é tristemente irônico que o Grande Irmão - Big Brother - criado por Orwell com o objetivo de alertar a humanidade para o perigo do totalitarismo, tenha-se transformado num ícone da cultura do voyeurismo, ao ter seu nome usado para batizar um programa de TV onde pessoas absolutamente vulgares e sem conteúdo expõem sem o menor constrangimento sua mediocridade e, o que é pior, transformam-se em ídolos para uma população carente de exemplos mais construtivos ou de referências mais sólidas... Um paralelo, contudo, existe: no livro de Orwell, Winston lembra-se que o rosto do Grande Irmão nos cartazes ainda é o mesmo de quando ele era menino, 30 anos atrás - o GI não envelhece, porque não é uma pessoa de verdade, apenas um personagem, um rosto que personifica o próprio regime. Da mesma forma, as pessoas que se exibem no zoológico hi-tech que é o Big Brother da TV não são, enquanto estão ali, propriamente pessoas - apenas imagens, personagens, rostos e corpos que simbolizam algo na cabeça dos telespectadores. "Reality show"? Show, sem dúvida; de realidade, parece haver muito pouco.

O fato de a amante de Winston, Júlia, trabalhar no "Departamento de Ficção", chamou-me a atenção ao ser relembrado pelo Prof. Fischer; o paradoxo de tal detalhe me havia escapado quando li o livro - em parte, acredito, devido à minha pouca idade, e em parte ao fato de as principais mídias de então serem ainda basicamente as mesmas que Orwell conheceu em vida, ou cujo desenvolvimento já podia ser previsto em sua época: em 1989, embora os telefones já fossem coisa corriqueira, ninguém achava estranho o fato de uma família de classe média não ter um (de fato, na minha casa ele só seria instalado quatro anos depois); videocassetes, muita gente tinha, e muita gente não tinha; computadores caseiros eram raros; DVDs e celulares não existiam, e de internet, então, nem se falava. Por tudo isso, não causou estranhamento a um garoto de 15 anos que, na sociedade totalitária prevista por Orwell, o governo usasse a literatura como instrumento de lavagem cerebral. Hoje em dia só podemos ficar pensando em como seria bom se a população em geral lesse seja lá o que fosse, não importa o quão ordinária fosse essa literatura. Já foi dito, e é certo, que a leitura é uma forma de vício (um vício que deveríamos estimular nossas crianças a contrair o mais cedo possível...), e, como em outros vícios, também no caso dela o "usuário" desenvolve tolerância e passa a sentir necessidade de coisas mais fortes: quem começa hoje lendo Paulo Coelho, daqui a um ano ou dois sentirá vontade de experimentar algo mais consistente e bem escrito, e talvez passe a Sidney Sheldon, e assim, de passo em passo, quem sabe não acabe um dia tornando-se um apreciador de Tolstoi, Machado de Assis ou Shakespeare?... Mesmo que esse leitor jamais vá além do nível Sidney Sheldon, isso já será incomparavelmente melhor do que seguir pela vida sem ler nada. Sei que estou repetindo coisas já ditas milhares de vezes, mas é fato: ao contrário da televisão e de outras mídias que simplesmente nos despejam coisas prontas, a leitura estimula a imaginação, o senso crítico, e leva a pessoa a fazer-se perguntas e procurar as respostas. Não existe livro tão vagabundo que não ensine alguma coisa nova, por menor que seja, a quem o lê. A leitura, com tudo o que ela traz à vida de uma pessoa, é como uma avalanche, que, uma vez iniciada, não pode ser detida. Enfim, o Grande Irmão do século XXI jamais teria a seu serviço um Departamento de Ficção!...

3 comentários:

Georgia disse...

Certamente, assim que terminar o meu 1984 (que espero que não leve 1984 anos) eu vou ler essa tua crítica, mas não quero fazer isso agora com receio que digas algo a respeito do término da obra. E eu adoro surpresas!

Hoje meu tempo está permitindo ler teus outros textos e pretendo aos poucos comentar, um a um.

Um pedido, gostaria muito que comentasse o "A revolução dos Bichos", do mesmo autor. Caso não o tenha lido (o que duvido muito) te recomendo.

É redundância dizer que um livro do Eric Arthur Blair, vulgo Orwell, é magnífico!

Best Wishes.

edson disse...

É fascinate como as palavras de Orwell em 1984,continuam com impacto significativo nos dias atuais.
Como a sociedade pode ser submetida a manipulaçao e controle, o tolitarismo existe bem a nossa frente porem nao com sua cruel face, mas camuflada sob a forma de estimulo e facilidades. Hoje todos somos mais numeros do que seres humanos , deixamos de ter um valor real para ter um valor comercial , porem uma sociedade que questione nao é facilmente controlada , por isso que vemos tanto descaso com a educaçao e ma qualidade do que é imposto pela midia nos dias atuais , onde a cultura é trocada pelos escandalos , baixarias.
È como ja dizia Orwell em seu fascinate e espantoso livro
Guerra é paz, como vemos diariamente , povos sao matidos por diferentes motivos "desculpas" sobre guerra para garantir a paz dos mais poderosos sobre suas riquezas.
Liberdaede é escravidao, um povo livre é um povo sem corrente em suas mentes , nao sao manipulados
e ignorancia é força essa despensa comentarios.
Faz 3 anos que li a obra tinha 15 e fiqeui impressionado com a grande previsao de nossa sociedade, embora nao tao utopica quanto a de Winston mas tristemente fragilizada de pensar.

João Pedro Corrêa Alves disse...

Olá Marcos...

Depois de vários dos teus textos percebi que a minha lista de livros que pretendo ler está bem extensa...

Várias pessoas jé me recomendaram 1984 de Orwell, mas depois de ler esta postagem fiquei ainda mais curioso e motivado a lê-lo.
Adoro o teu Blog e vou acompanha-lo e tentar comentar o máximo que puder :).

Abraços...